Ser covarde, é...

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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Lula: Por que querem me condenar.

"Lula tem 15 irmãos e algo como 100 parentes. Desde que Tomé de Souza chegou a Salvador, nenhuma família de governante teve tão poucas relações com o Estado como a dos Silva. Mais: nenhuma veio de origem tão modesta e continuou a viver em padrões tão modestos".
ELIO GASPARI.

Em mais de 40 anos de atuação pública, minha vida pessoal foi permanentemente vasculhada -pelos órgãos de segurança, pelos adversários políticos, pela imprensa. Por lutar pela liberdade de organização dos trabalhadores, cheguei a ser preso, condenado como subversivo pela infame Lei de Segurança Nacional da ditadura. Mas jamais encontraram um ato desonesto de minha parte.

Sei o que fiz antes, durante e depois de ter sido presidente. Nunca fiz nada ilegal, nada que pudesse manchar a minha história. Governei o Brasil com seriedade e dedicação, porque sabia que um trabalhador não podia falhar na Presidência. As falsas acusações que me lançaram não visavam exatamente a minha pessoa, mas o projeto político que sempre representei: de um Brasil mais justo, com oportunidades para todos.

Às vésperas de completar 71 anos, vejo meu nome no centro de uma verdadeira caçada judicial. Devassaram minhas contas pessoais, as de minha esposa e de meus filhos; grampearam meus telefonemas e divulgaram o conteúdo; invadiram minha casa e conduziram-me à força para depor, sem motivo razoável e sem base legal. Estão à procura de um crime, para me acusar, mas não encontraram e nem vão encontrar.

Desde que essa caçada começou, na campanha presidencial de 2014, percorro os caminhos da Justiça sem abrir mão de minha agenda. Continuo viajando pelo país, ao encontro dos sindicatos, dos movimentos sociais, dos partidos, para debater e defender o projeto de transformação do Brasil. Não parei para me lamentar e nem desisti da luta por igualdade e justiça social.

Nestes encontros renovo minha fé no povo brasileiro e no futuro do país. Constato que está viva na memória de nossa gente cada conquista alcançada nos governos do PT: o Bolsa Família, o Luz Para Todos, o Minha Casa, Minha Vida, o novo Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), o Programa de Aquisição de Alimentos, a valorização dos salários -em conjunto, proporcionaram a maior ascensão social de todos os tempos.

Nossa gente não esquecerá dos milhões de jovens pobres e negros que tiveram acesso ao ensino superior. Vai resistir aos retrocessos porque o Brasil quer mais, e não menos direitos.

Não posso me calar, porém, diante dos abusos cometidos por agentes do Estado que usam a lei como instrumento de perseguição política. Basta observar a reta final das eleições municipais para constatar a caçada ao PT: a aceitação de uma denúncia contra mim, cinco dias depois de apresentada, e a prisão de dois ex-ministros de meu governo foram episódios espetaculosos que certamente interferiram no resultado do pleito.

Jamais pratiquei, autorizei ou me beneficiei de atos ilícitos na Petrobras ou em qualquer outro setor do governo. Desde a campanha eleitoral de 2014, trabalha-se a narrativa de ser o PT não mais partido, mas uma "organização criminosa", e eu o chefe dessa organização. Essa ideia foi martelada sem descanso por manchetes, capas de revista, rádio e televisão. Precisa ser provada à força, já que "não há fatos, mas convicções".

Não descarto que meus acusadores acreditem nessa tese maliciosa, talvez julgando os demais por seu próprio código moral. Mas salta aos olhos até mesmo a desproporção entre os bilionários desvios investigados e o que apontam como suposto butim do "chefe", evidenciando a falácia do enredo.

Percebo, também, uma perigosa ignorância de agentes da lei quanto ao funcionamento do governo e das instituições. Cheguei a essa conclusão nos depoimentos que prestei a delegados e promotores que não sabiam como funciona um governo de coalizão, como tramita uma medida provisória, como se procede numa licitação, como se dá a análise e aprovação, colegiada e técnica, de financiamentos em um banco público, como o BNDES.

De resto, nesses depoimentos, nada se perguntou de objetivo sobre as hipóteses da acusação. Tenho mesmo a impressão de que não passaram de ritos burocráticos vazios, para cumprir etapas e atender às formalidades do processo. Definitivamente, não serviram ao exercício concreto do direito de defesa.

Passados dois anos de operações, sempre vazadas com estardalhaço, não conseguiram encontrar nada capaz de vincular meu nome aos desvios investigados. Nenhum centavo não declarado em minhas contas, nenhuma empresa de fachada, nenhuma conta secreta.

Há 20 anos moro no mesmo apartamento em São Bernardo. Entre as dezenas de réus delatores, nenhum disse que tratou de algo ilegal ou desonesto comigo, a despeito da insistência dos agentes públicos para que o façam, até mesmo como condição para obter benefícios.

A leviandade, a desproporção e a falta de base legal das denúncias surpreendem e causam indignação, bem como a sofreguidão com que são processadas em juízo. Não mais se importam com fatos, provas, normas do processo. Denunciam e processam por mera convicção -é grave que as instâncias superiores e os órgãos de controle funcional não tomem providências contra os abusos.


Acusam-me, por exemplo, de ter ganho ilicitamente um apartamento que nunca me pertenceu -e não pertenceu pela simples razão de que não quis comprá-lo quando me foi oferecida a oportunidade, nem mesmo depois das reformas que, obviamente, seriam acrescentadas ao preço. Como é impossível demonstrar que a propriedade seria minha, pois nunca foi, acusam-me então de ocultá-la, num enredo surreal.

Acusam-me de corrupção por ter proferido palestras para empresas investigadas na Operação Lava Jato. Como posso ser acusado de corrupção, se não sou mais agente público desde 2011, quando comecei a dar palestras? E que relação pode haver entre os desvios da Petrobras e as apresentações, todas documentadas, que fiz para 42 empresas e organizações de diversos setores, não apenas as cinco investigadas, cobrando preço fixo e recolhendo impostos?

Meus acusadores sabem que não roubei, não fui corrompido nem tentei obstruir a Justiça, mas não podem admitir. Não podem recuar depois do massacre que promoveram na mídia. Tornaram-se prisioneiros das mentiras que criaram, na maioria das vezes a partir de reportagens facciosas e mal apuradas. Estão condenados a condenar e devem avaliar que, se não me prenderem, serão eles os desmoralizados perante a opinião pública.

Tento compreender esta caçada como parte da disputa política, muito embora seja um método repugnante de luta. Não é o Lula que pretendem condenar: é o projeto político que represento junto com milhões de brasileiros. Na tentativa de destruir uma corrente de pensamento, estão destruindo os fundamentos da democracia no Brasil.

É necessário frisar que nós, do PT, sempre apoiamos a investigação, o julgamento e a punição de quem desvia dinheiro do povo. Não é uma afirmação retórica: nós combatemos a corrupção na prática.

Ninguém atuou tanto para criar mecanismos de transparência e controle de verbas públicas, para fortalecer a Polícia Federal, a Receita e o Ministério Público, para aprovar no Congresso leis mais eficazes contra a corrupção e o crime organizado. Isso é reconhecido até mesmo pelos procuradores que nos acusam.

Tenho a consciência tranquila e o reconhecimento do povo. Confio que cedo ou tarde a Justiça e a verdade prevalecerão, nem que seja nos livros de história. O que me preocupa, e a todos os democratas, são as contínuas violações ao Estado de Direito. É a sombra do estado de exceção que vem se erguendo sobre o país.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA foi presidente do Brasil (2003-2010). É presidente de honra do PT (Partido dos Trabalhadores)


terça-feira, 27 de setembro de 2016

As três infâmias da Operação Lava Jato

As três infâmias da operação lava jato

Por Roberto Amaral (www.ramaral.org)
Sabia-se que denunciariam Lula, como tudo farão para vê-lo atrás das grades, independentemente de provas e da ordem jurídica.Ricardo Stuckert/Fotos Públicas
A regra dos Estados autoritários, em todos os tempos, é sempre a mesma: escolhe-se o inimigo, decidem-se as penas e depois, ‘julga-se’.

A cidadania e o que resta de consciência jurídica neste país macunaímico, foram agredidos por três infâmias desde sempre anunciadas, como a morte de Santiago Nasar que Gabriel Garcia Márquez tornou simbólica em sua novela genial: a anunciada denúncia dos procuradores contra Lula, sua anunciada recepção por um juiz irrecuperavelmente suspeito e, finalmente, o esperado despacho do presidente do Senado Federal, condenando ao arquivo das peças mortas dois pedidos de impeachment interpostos contra o inefável ministro Gilmar Mendes.

Sabia-se, sabiam o céu e a terra, que os jovens aprendizes de Torquemada denunciariam Lula, como tudo farão para vê-lo atrás das grades, independentemente de provas, independentemente da ordem jurídica, ferida, agredida, desmoralizada dias após dia.

Denunciariam porque, para a consolidação do golpe (um golpe em processo) é preciso liquidar, no mais rigoroso sentido da palavra, o ex-presidente, que insiste em manter-se à tona; sabíamos, sabiam até as pedras de mármore do STF, que o juiz Sérgio Moro aceitaria a denúncia.

Sem precisar lê-la (aceitaria mesmo antes de recebe-la), pois essa era sua missão (como é amanhã a de condenar, com provas ou sem provas) em todo esse processo ignominioso, que ficará em nossa História como ficaram para sempre, paradigmas do horror policial-judicial, os processos stalinistas contra os dissidentes soviéticos, como ficaram as perseguições e a violência do macarthismo nos EUA (apoiado no Congresso e aplaudido pela mídia), assim como já faz parte da má história do Judiciário brasileiro a condenação, pelo STF, de Olga Benário à deportação e sabidamente às câmeras de gás da Alemanha nazista.

Todas elas barbaridades perpetradas ‘com amparo da lei’, como o golpe do impeachment, pois o formalismo jurídico jamais foi instrumento de defesa dos direitos individuais, da democracia ou das liberdades. Ao contrario, é frequentemente usado como instrumento de opressão, manipulado pelos senhores da vez.

O celebrado juiz Sérgio Moro (que se julga ‘eleito pelo Senhor’) atua, em um mesmo processo, a um só tempo, como policial, investigador, promotor e julgador, o que, além de injusto para com o acusado, todo e qualquer acusado, viola tanto a legislação processual quanto a garantia constitucional de processo justo.

Não há que se falar em processo justo (e muitos menos legal) se o juiz é injusto. É a hora de repetir, com a ministra Cármen Lúcia, o seu discurso de posse no Supremo Tribunal Federal: “Há de se reconhecer que o cidadão não há de estar satisfeito, hoje, com o Poder Judiciário”. Não, não pode estar satisfeito. Não sei, porém, se nossas insatisfações têm a mesma raiz.

Convicção formada

Os juízes do Tribunal de Segurança do Estado Novo e os juízes das auditorias militares e do Superior Tribunal Militar da ditadura implantada em 1964, que condenaram centenas de resistentes, não precisaram de ‘provas’; como aos promotores de hoje, bastava-lhes naqueles tempos a mera a ‘convicção’.

Chegavam todos para as sessões com seus votos prontos, convicção firmada.

O resto, era simplesmente a liturgia. Também não precisavam de provas – elas seriam obtidas na tortura – os sicários que atuavam nos porões da ditadura, em dependências das três forças e de todas as polícias estaduais, condenando, para depois julgar, suas vítimas. Eles também se julgavam ‘eleitos’ para a santa missão de ‘livrar o Brasil do comunismo materialista’.

A regra dos Estados autoritários, aqui e agora, como em toda a parte e em todos os tempos, rotineiramente com a conivência ou mesmo a participação do Poder Judiciário, como hoje, é sempre a mesma: escolhe-se o inimigo (e a escolha já implica condenação), decidem-se as penas e depois, ‘julga-se’.

Quem viveu os ‘anos de chumbo’, quem frequentou uma auditoria militar, quem assistiu a uma só sessão do STM sabe de que estou falando.

No caso de Lula, a condenação anunciada (e sabe-se que será condenado pelo juiz Moro, independentemente de sua defesa e da existência ou não de provas) é apenas instrumental, contingente, pois o grande objetivo é a condenação na segunda instância (o Tribunal Regional Federal), já anunciada pela Folha de S. Paulo do último dia 21, para, assim, alcançada a penalidade da Lei da Ficha Limpa, inviabilizar sua eventual candidatura em 2018, no que jogam todas as forças conservadoras deste país.

O resto é filigrana, ou, em bom português, ‘conversa para boi dormir’, a que se dedicarão procuradores, juízes e os colunistas da grande imprensa.

Os novos agentes da velha ordem são movidos pela mesma convicção de que se sentiam possuídos os juízes da Santa Inquisição que condenaram Giordano Bruno.

Messiânicos, se atribuem a tarefa, ditada pelos céus, de ‘limpar’ o país da corrupção, e assim, auto escolhidos cruzados modernos, partem para massacrar os ímpios e os hereges e o que fizerem será sempre justo porque terão agido, em nome de Deus.

Cumprindo sua parte num roteiro pré-elaborado, o senador pelas Alagoas (que já nos deu o velho Teotônio Vilela e nos dá insistentemente Fernando Collor), leu, balbuciante, claudicante, o texto tatibate que lhe escreveram, para declarar, sem jamais justificar, o não conhecimento de duas petições justificadas e fundamentadas, firmadas por uma dúzia de juristas brasileiros e eminentes professores de direito constitucional, contra o ministro Gilmar Mendes.

Como todo o país sabe, sabe todo o Senado, sabem todos os ministros do STF e do TSE, sabem todos os viventes e até o reino mineral, a atuação judicante desse ministro está comprometida pela sua clara, ostensiva, evidente, inegável filiação partidária, filiação que não precisa de assinatura de ficha na secretaria do PSDB, pois se consagra na comunhão fática, programática, eleitoral e ideológica.

Enfim, na comunhão de interesses.

Essa atuação facciosa, além de jamais negada pelo ministro, foi, exaustiva e documentalmente, demonstrada nas duas peças que o presidente do Senado desconheceu, sem precisar ler, repito, pois rejeitá-las era seu compromisso de vida ou de morte.

Aliás, a rejeição foi previamente anunciada, já antes mesmo do ingresso das peças jurídicas.

E como poderia o senador Renan Calheiros dar provimento a esse pedido de sincera defesa da magistratura, se tem sob seus ombros algo como nove inquéritos e alguns processos já com denúncia, os quais, em função do foro privilegiado a que faz jus, serão jugados pelo STF, onde pontifica seu protegido-protetor?

Também não podia, ainda por força de suas circunstâncias pessoais de eventual réu, arguir sua própria suspeição em face de processo que poderia atingir um de seus prováveis julgadores. Não, não podia, pois, cabia-lhe, era sua parte indescartável nesse jogo de cartas marcadas, tão-só deter no nascedouro qualquer ameaça à judicatura política de Gilmar Mendes.

Desta feita, Renan Calheiros não enganou. Procurado para marcar data e hora para o ingresso de uma das petições, negou-se a receber seus autores. Indicando-lhes o protocolo do Senado, antecipou, de logo, que determinaria o arquivamento do pedido, como já o fizera, aliás, com cinco outros.

A justificativa, comentam seus colegas no cafezinho do Senado, seriam os muitos favores por ele devidos ao ministro. Agora, talvez, possa dizer, em seu proveito, que a recíproca é verdadeira.

À solta, com a imprensa a reverberar suas declarações, entidades de classe de toda ordem a chamá-lo para palestras sobre tudo, em meio às suas viagens durante a semana de trabalho (que tempo lhe sobra para a judicatura em dois tribunais superiores?), o ministro moureja para que o julgamento do pedido de impugnação das contas da chapa Dilma-Temer, que pode levar à cassação do vice feito presidente, não prospere. No caso, as atribuições ou tratativas do magistrado são várias.

Uma ele já anunciou e reanunciou em suas sucessivas entrevistas; separar a campanha de Dilma daquela de seu lamentável vice, salvando este dos efeitos da cassação da chapa na qual foi eleito sem fazer campanha própria e sem ser votado. Por resguardo e segurança, trata, o ministro, agindo como líder político, de evitar que o processo prospere ou, pelo menos, que seja julgado ainda neste ano.

A razão é simples: nos termos da Constituição Federal (Art. 84) haverá eleição direta (e dela os donos do poder fogem como o diabo da cruz) se a vacância da presidência, no caso a cassação da chapa eleita em 2014, ocorrer antes do fim do mandato (1º de janeiro de 2017). Dando-se a vacância depois dessa data, a eleição do novo Presidente da República far-se-á por eleição indireta, ao encargo do Congresso.

Nessa eleição o PSDB, como demonstraram as votações do impeachment de Dilma Rousseff nas duas Casas, terá todas as condições de eleger um Aécio Neves qualquer, ou, quem sabe, repetindo 2015 nas eleições para a presidência da Câmara, um Eduardo Cunha qualquer. O ministro Gilmar está atento e maquinando.

Temer que se cuide, pois sua garantia vence no final do ano.

A militante periculosidade do juiz partidário se agrava com a cumulação do papel de ministro do STF com o de presidente do TSE, máxime em ano eleitoral.

Leia mais em www.ramaral.org

#NoBrasilNuncaHouveDemocracia

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A prisão de Palocci mostra as garras da fase 2 do golpe

A prisão de Palocci mostra as garras da fase 2 do golpe.

Por Renato Rovai
Blog do Rovai - www.revistaforum.com.br

Ontem o ministro da Justiça Alexandre Moraes estava em Ribeirão Preto fazendo campanha para o tucano Duarte Nogueira, que não consegue decolar nas pesquisas e é o líder em rejeição na cidade. Comportando-se como um führer, disparou: “Teve a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim”.
Moraes, com Cunha e Alckmin em Brasília (Foto: Fabio Pozzebom/ Agência Brasil)

No evento, todos entenderam o recado e provavelmente muitos foram informados pelo ministro: o próximo a ser preso pela Lava Jato seria o ex-ministro Antonio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão.

A prisão seria utilizada como trunfo na campanha de Duarte. E como Palocci é figura nacional, como mais uma pá de cal na tentativa obstinada dos setores conservadores de enterrar de vez o PT.

Em qualquer democracia, hoje o país entraria em uma imensa crise. Nenhum ministro do Supremo ficaria calado. Haveria protestos de procuradores, promotores, juízes, advogados. E a mídia repercutiria tudo com imenso destaque. Ao mesmo tempo, no Congresso os discursos contra o vazamento da informação por Moraes abririam uma imensa crise política.

Não haveria como manter o ministro no cargo. E investigações seriam abertas para entender o que ocorrera e verificar se a prisão do ex-ministro havia sido realizada com interesses outros, que não o de cumprir a lei.

Para o golpe judiciário midiático parlamentar isso é peanuts. Não há o que se discutir e a vida vai seguir na nova valsa que embala o país, a valsa do golpe.

Não há mais limite algum quando um ministro da Justiça antecipa a prisão de um adversário político no comício de um aliado. E a ordem se cumpre no dia seguinte.

O rumo das investigações está claramente definido e sua agenda segue interesses eleitorais.

Se Haddad estivesse bem posicionado na eleição de São Paulo, a Lava Jato se voltaria contra ele neste momento. Um ex-tucano disse a este blogue ainda antes da campanha começar que Dória Jr. afirmava que com Haddad não se preocupava, porque pra ele tinha o Moro.

O silêncio do judiciário não tem nada de inocente. A forma como a mídia vai tratar a prisão de Pallocci, idem.

O massacre do PT nas urnas nesta eleição municipal é parte fundamental do golpe, como já escrevi nesse artigo.

E abrirá a porta para sua fase 2, que será muito mais violenta, porque necessitará conter as ruas.

O massacre do PT e de aliados de Lula neste momento é fundamental por isso. Porque o discurso a ser utilizado é de que as ruas são a minoria petista, que deseja inviabilizar o país.

Alexandre Moraes é um dos mais perigosos ministros deste projeto. Ele está no governo não só pavimentando a candidatura de Alckmin à presidência, mas também trabalhando pra ser o candidato tucano ao governo do Estado.

E mais do que isso, buscando articular um novo campo conservador, que mistura interesses difusos e complementares. Um campo que tem pé nas elites, mas conexões com setores populares pois congrega desde amplos setores das igrejas neopetencostais a grupos criminosos, como o PCC.

Moraes não assumiu o ministério da Justiça à toa. Ele é uma pedra importante no xadrez do golpe.

E com ele não tem essa de fazer de conta.

Nos protestos antes da votação do impeachment de Dilma ele passeava em meio aos manifestantes garantindo que 200 pessoas interditassem a Avenida Paulista durante um dia inteiro.

Nos atuais, contra o governo de Temer, que reúnem até 100 mil pessoas, é ele quem dá as ordens pra o pau comer solto.

Palocci não é um santo, mas não é pior do que Aécio, Temer, Serra, Renan, Romero Juca, Eduardo Cunha e tantos outros que foram delatados por diversas vezes na Lava Jato.

Palocci só está indo preso agora porque é do PT. E porque foi um importante ministro de Lula e Dilma.

E Moraes mostrou ao antecipar em discurso isso para seus amigos, quem é que manda nesta bodega.

#NoBrasilNuncaHouveDemocracia

domingo, 25 de setembro de 2016

As Elites Conservadoras, o Pelourinho e o PT

As Elites Conservadoras, o Pelourinho e o PT

*Lula Miranda

Se todos os grandes partidos cobram propinas em suas gestões, por que só o Partido dos Trabalhadores está sofrendo essa verdadeira devassa e perseguição, tanto pelo Judiciário quanto pela grande imprensa do país?

E o PMDB, o PSDB, o PP, o PTB – notórios “ladrões” da República?

Tá aí uma pergunta legítima de se fazer. Ou você não havia ainda se feito essa pergunta? Ou nem sequer quer que ela seja feita - não é mesmo?

Por que apenas os políticos, tesoureiros, marqueteiros, banqueiros e os empresários, de algum modo associados ao Partido dos Trabalhadores ou que a este tenham prestado serviço, são investigados, acusados, presos e condenados - nessa ordem. Não são sequer julgados de fato e de direito, pois são todos, prévia e sumariamente, condenados com base em "delações premiadas", nas quais os verdadeiros criminosos são postos em liberdade com o singelo adereço de uma tornozeleira eletrônica preso ao pé.

Por que só o PT?

Insisto, de modo inconveniente, decerto, na pergunta que não quer calar.
É uma pergunta que todos devemos nos fazer, antes de qualquer julgamento definitivo; antes de condenar, de modo precipitado, intempestivo e peremptório; antes de determinar a "desgraça", o "fim" desse partido político que foi tão importante em nossa história contemporânea.
Segue uma possível resposta: é o velho mecanismo da intimidação e subjugação pela violência, pelo medo, pela punição e castigo. Nem precisa ter lido Foucault!
Se nos tempos de antanho dispunha-se da chibata, dos pesados grilhões e do pelourinho para dar espetacular publicidade às punições "exemplares" a que eram submetidos os escravos fujões, e assim impedir que outros seguissem o (mau) exemplo, hoje as elites conservadoras dispõem do Judiciário, de parte do MP, e da grande imprensa de negócios e negociatas.
Ou seja: o Judiciário, o Ministério Público (a PF, a PM) e a grande imprensa fazem o papel de capatazes ou de "João das Mortes" (de caçadores de escravos fujões e cangaceiros), chibata e pelourinho - mais ou menos nessa ordem.
O recado é claro: não tentem mudar a ordem das coisas, tampouco ousem juntar-se àqueles que querem mudar a ordem "natural" das coisas e o "legítimo" curso da história, que, não custa lembrar, é escrita pelos vencedores de sempre: "escravo é escravo, e deve saber o seu devido lugar na sociedade; e aqueles que a estes se juntarem em sua vil e vã sanha libertadora, serão severa e emblematicamente castigados".
Depois que as nossas elites conservadoras punirem, de modo exemplar, os supostos libertadores de escravos, a escravidão voltará a imperar, o "couro a comer" na carne, e a chibata voltará a estalar no lombo dos pretos, das putas e dos pobres em praça pública.
Ou você ainda não havia se dado conta de que os trabalhadores de hoje são os escravos de ontem?
Ou você ainda não havia entendido direito o recado?
Ou ainda não havia se dado conta que a Casa Grande hoje está em festa?
E que tem um bando de canalhas, os mesmos de sempre, sorrindo nas fotos estampadas nos jornais e nas imagens veiculadas no Jornal Nacional.

*Lula Miranda Poeta, cronista e economista. Além de colunista do 247, publica artigos em veículos da chamada imprensa alternativa, tais como Carta Maior, Caros Amigos, Observatório da Imprensa e Fazendo Média.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O exílio de Lula!

Ângelo Cavalcante: O exílio de Lula!

Revista Forum - www.revistaforum.com.br

Mas não tem o menor sentido ou cabimento para Lula permanecer no Brasil. O PT e sua “estranha” direção nacional devem imediatamente, iniciar negociações com países sérios e civilizados, asilo político para o ex-presidente.

Não há tábua de salvação que o livre da prisão. Até o vinte e cinco de dezembro deste ano, Lula estará devidamente encarcerado. Mesmo não havendo qualquer crime que o envolva; sem qualquer investigação que lhe impute crime ou delito e tal aspecto, de fato, já não faz a menor diferença: Lula será constrangido, humilhado, detido e preso sem previsão de saída.

E não pensem que isso tem qualquer coisa que ver com o PMDB, essa caótica e corrupta confederação de coronéis e que sequer candidato a presidente da República é capaz de lançar; com o fracassado e repetitivo PSDB que arruína cidades e estados com a velha cantilena do desmonte público e estatal e; muito menos, com o DEM, esse espectro crônico e golpista da ditadura militar de 1964 e que habita inútil e improdutivo entre nós.

Vou tentar explicar exagerando um pouco… Mas lembram do Iraque ao fim do regime de Saddam Hussein quando, este já estava morto e as tropas anglo-americanas declararam encerrada sua guerra “libertária”? Lembram que, em seguida, um consórcio de empresas e de diversos países, inclusive de países que foram contra a guerra, se achegaram sedentos para o banquete do petróleo daquele país e mesmo para a sua reconstrução? Pois é… O que está por acontecer no governo golpista é mais ou menos isso. A abertura que está por vir, colocará um sem-número de corporações para se apossarem dos ativos ambientais com muito destaque para as riquezas da maior jazida de petróleo do mundo: o pré-sal.

Não… Não é exagero! É real! Isso é comum e corriqueiro na lógica imperial e globalizante perpetrada pelos países de economia central. São useiros e vezeiros dessas táticas e… Chegou nossa vez!
Não somos uma democracia e a nação está integralmente entregue às máfias planetárias do rentismo internacional e que carecem de investimentos reais para imobilizar seus mares de capitais e que, se não forem, devidamente convertidos em negócios concretos… Somem! Viram papéis podres e pintados!

Vou repetir! Somos governados por máfias “high-tech” com o sempre providencial apoio de agências de inteligência como a CIA e organismos similares da Europa. E nada disso tem que ver com os partidecos do país, com essa oposição cretina e desclassificada. Aliás, é preciso dizer que o que apetece no Brasil golpeado não tem precedente no mundo contemporâneo. Mesmo as máfias russas que se apossaram do país na imediata quebra do império soviético não foram capazes de fazer lá o que as máfias brasileiras em escancarada articulação com o crime internacional estão a fazer com o Brasil.

Lula e sua família devem obrigatória e imediatamente sair do país porque em definitivo, não há justiça para ele e sua família; De lá, do exterior, Lula deve articular uma oposição planetária ao que acontece no Brasil. É o que pode ser feito. Não esperem seu retorno porque certamente não voltará. É o que cabe para um líder internacional do naipe de Luís Inácio Lula da Silva.

O Partido dos Trabalhadores seguirá, conforme o script da subjugação nacional, sendo amiudado, reduzido ao nível e ponto do simbólico, do trivial. Sim, o PT não irá acabar, irá, isto sim, seguir se atomizando, sendo convertido em uma virtualidade imagética a tão somente, alimentar o simulacro de democracia e que, taticamente, deve permanecer para que o populacho, a canalha brasileira nada veja, perceba ou identifique.

Quanto a nós… É nosso dever organizar a resistência nacional em prol de muita rebelião.

*Ângelo Cavalcante é economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A hora do delírio

Lula vai à posse da ministra Cármen Lúcia na presidência do STF, enquanto no ar solene se difundem as notas do Hino Nacional cantado por Caetano Veloso

A Hora Do Delírio
Por Mino Carta.
Em nome de uma “convicção” os fanáticos do apocalipse de Curitiba denunciam Lula na qualidade de “comandante supremo” da corrupção na Petrobras. E vem à baila o famoso triplex de 200 m2...

Assisto a um espetáculo de pura demência, e dentro dele ninguém mais habilitado ao papel de oficiante do que o promotor Deltan Dallagnol, milenarista fanático do Apocalipse. O que me ofende, humilha, destroça, é o comportamento de muitos na assistência, incapazes de entender o grau de parvoíce atingido pelo Brasil da casa-grande e da senzala, cada vez mais mergulhado na treva medieval.

Já não me refiro ao quociente de inteligência a que o País se deixou reduzir, aludo ao quociente de delírio. A denúncia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não passa de uma pregação desvairada e raivosa, baseada em devaneios do ódio represado, manifestados com uma enxurrada de palavras pronunciadas no tom do eremita Pedro, o marqueteiro da primeira Cruzada.

Soa nos meus ouvidos a diatribe frenética, e me pergunto a que tempo pertence. Não é certamente contemporâneo do mundo de hoje, por mais decadente. Ao cabo, sobram o indiciamento por causa do celebérrimo triplex da praia dos farofeiros e a acusação relativa a uma propina de 3,7 milhões de reais, alegada sem provas ao afirmar o enriquecimento ilícito de alguém que se contenta com pouco. O padrão habitual é o de Eduardo Cunha, que recebeu 52 milhões.

O tal apartamento do Guarujá está no centro de uma história brutalmente enfadonha, também ela prova da pobreza mental e da aterradora ausência de espírito crítico por parte de quantos a leram e ouviram repetida ad infinitum sem experimentar ao menos um arrepio de perplexidade. Depois de ter pago uma cota para adquirir o imóvel, ainda no tempo de Lula presidente, já cidadão comum ele desistiu da compra e o apartamento hoje é de outro proprietário.

O fumacento arrazoado do promotor Dallagnol basta para fazer do ex-presidente “o comandante máximo” da corrupção na Petrobras? Tanto mais porque a gravíssima acusação nasce da “convicção” dos pregadores curitibanos, a brandirem infográficos de dar inveja em jornalões e revistões nativos?

Parece sandice acreditar no acerto da denúncia, mas neste parvo Brasil haverá quem acredite, mesmo porque o desenho do golpe, ao alcançar Lula, atinge o alvo final da farsa trágica e o indiciamento do candidato favorito às próximas eleições presidenciais e líder do PT, figurava nas previsões até do mundo mineral. O impeachment de Dilma Rousseff é apenas uma passagem da encenação urdida em proveito da casa-grande com o preciso propósito de destruir o Partido dos Trabalhadores.

A operação faz sentido aos olhos dos senhores. Verdade factual: no poder o PT portou-se como os demais partidos brasileiros, mas os graúdos insistem em enxergá-lo como a agremiação da ralé, único entrave possível à criação do Estado mínimo, à sujeição total ao neoliberalismo, à genuflexão ao deus mercado.

Não é por acaso que Lula comandou o melhor governo pós-ditadura, ao dar passos importantes para reduzir a monstruosa desigualdade social que caracteriza o País. E também ao praticar uma política externa independente, desatada do interesse de Tio Sam.

O indiciamento de quarta-feira 14 confirma a participação dos magistrados curitibanos no golpe ainda em andamento. Participação canhestra, eivada de irregularidades e concluída por um indiciamento inepto à luz da lei.

Penoso resultado, para não dizer risível, de um golpe que uniu Justiça, na instância regional e na Suprema, Polícia Federal, Congresso, empresariado rentista, mídia nativa. Manobristas descarados de um processo que escolhe o culpado antes de definir a culpa.

Difícil estabelecer a hierarquia dos responsáveis por tanto descalabro. Causa-me extrema vergonha de cidadão ofendido, e de jornalista humilhado pela amoralidade dos ditos colegas, o desempenho do Supremo Tribunal Federal, teoricamente sentinela da lei. Teoricamente.

Ao longo deste penoso episódio, até agora não encerrado, a Suprema Corte entregou-se sem mossa a um silêncio aterrador, quando, a bem da sacrossanta verdade, compete-lhe a análise do mérito dos passos dados nos mais diversos quadrantes, em defesa da Constituição. A Carta foi, e continua a ser rasgada, e o será, receio, sem que o STF cumpra seu dever.

O indiciamento é a bola rolada na pequena área para que Lula chute com o goleiro batido. Permito-me, porém, não entender a presença do ex-presidente à posse da ministra Cármen Lúcia no comando do Supremo, a significar respeito por quem o desrespeita.

Pergunto-me se o ex-presidente se deu conta de que estava a legitimar o golpe também tramado naquele canto da Praça dos Três Poderes, habitado por figuras de toga dispostas a trair seu compromisso para atuar politicamente e discutir matérias em julgamento.

Ainda ecoam os anátemas de Dallagnol, exemplar perfeito dos brasileiros a viver uma espantosa crise mental. País à matroca, devolvido ao seu tempo mais remoto, dos aborígenes crentes do valor das miçangas, ou dos escravos vergados pelo peso da chibata.

A casa-grande aposta na natureza de muitos prontos a engolir o insulto, quem sabe sem lhe entender o significado. Os senhores confiam na ignorância e na credulidade e não hesitarão em chegar às últimas consequências. Que se cuidem Michel Temer e seus asseclas, nesta operação não passam de peões.

sábado, 17 de setembro de 2016

Lula: inocente ou culpado?

Lula, ao se contrapor à denúncia da Lava Jato: pirotecnia
O ex-presidente Lula tem sido alvo de uma série de acusações, amplamente difundidas na imprensa e oriundas de autoridades do Judiciário. Em todos os casos, há um questionamento acerca das relações que Lula manteve com as grandes empreiteiras brasileiras após sua saída da Presidência da República.
As acusações visam a demonstrar que Lula recebe propina sob diversas formas com o objetivo de beneficiar as empreiteiras, se tornando um homem rico ao praticar atos de corrupção. Tirando aqueles que, por qualquer motivo, já têm sua opinião formada previamente, a questão que fica na cabeça de muitas pessoas é: será Lula inocente ou culpado das acusações?
Para tentar responder esta questão, em primeiro lugar vale listar as principais acusações feitas até hoje contra o ex-presidente. A primeira diz respeito à suposta compra de um apartamento no Guarujá, que teria sido reformado pela OAS com o intuito de beneficiar Lula e sua família. Os acusadores suspeitam que Lula é de fato o dono do apartamento e que a reforma foi uma forma de pagamento de propina.
A segunda acusação diz respeito a um sítio em Atibaia, que pertence a amigos da família de Lula e foi reformado pelo pecuarista Bumlai (inicialmente), tendo as obras sido assumidas pelas empreiteiras OAS e Odebrecht posteriormente. Neste caso, as duas acusações se repetem: os acusadores acreditam que Lula é de fato o dono do sítio e que a reforma foi uma maneira de pagar suborno que as empreiteiras encontraram.
Por fim, a terceira acusação diz respeito à atuação do Instituto Lula e da empresa de Palestras do ex-presidente, a LILS, que teria recebido cifras milionárias das empresas investigadas na Lava-Jato. Os acusadores acreditam que as doações e pagamentos de palestras feitas as empresas de Lula são fruto de propinas, derivadas de contratos fraudados das empreiteiras com a Petrobras, conseguidos graças ao apoio do ex-presidente.
Em todas estas acusações, existe uma questão moral e uma questão legal. Moralmente, pode ser argumentado que um ex-presidente não deveria aceitar nenhum tipo de benefício de empresas, uma vez que é uma figura pública e que isso poderia levantar suspeitas de favorecimento.
Porém, do ponto de vista legal, as acusações precisam demonstrar de forma concreta que os eventuais benefícios recebidos por Lula teriam origem em uma “troca de favores”. É preciso comprovar que o ex-presidente teria irregularmente beneficiado as empreiteiras através de seu poder e influência.
Esta questão, diferentemente da discussão moral, não abre muito espaço para interpretações: ou as evidências existem e são cabais, ou não existem e não há provas, apenas ilações. Pois então vejamos se, nas três acusações, há algo de comprovadamente ilegal relacionado ao ex-presidente.
No primeiro caso, do apartamento no Guarujá, a primeira grande dificuldade da acusação é provar que Lula seria, de fato, dono do apartamento. Isso porque ele nunca pagou nem assinou contrato de compra deste apartamento, sendo apenas um “cotista” da construção original da Bancoop (que foi devidamente declarado em seu imposto de renda).
Como poderia Lula ser dono de algo que não comprou e não pagou? A hipótese da utilização de terceiros ou empresas para adquirir o bem está longe de ser comprovada, não havendo nenhuma evidência até o momento de que isso teria de fato ocorrido.
Mas o fato de a empreiteira OAS ter reformado o apartamento para a família de Lula, sob orientação da esposa de Lula, não comprovaria a posse do apartamento? Legalmente, não. A reforma do apartamento foi realizada pela OAS como proprietária do imóvel, na esperança de vendê-lo para um ex-presidente da República, fato que certamente valorizaria o edifício.
Os custos da reforma poderiam ser acrescidos no ato da eventual venda do apartamento, que, no entanto, não ocorreu. Sendo assim, do ponto de vista legal, parece frágil a acusação de que Lula seria dono e beneficiário do apartamento do Guarujá, que, além disso, nunca frequentou.
O segundo caso é similar ao primeiro, mas com duas agravantes: Lula e sua família frequentam o sítio de Atibaia e as obras foram realizadas pelas empreiteiras de maneira injustificada (diferente da primeira acusação, em que a reforma pode se justificar pela expectativa de venda e valorização do imóvel).
Do ponto de vista legal, no entanto, parece claro novamente que a posse do sítio não é de Lula. O contrato de compra do sítio e as verbas para tal transação estão devidamente registradas em cartório, declaradas nos impostos de renda e assinadas pelos empresários Fernando Bittar e Jonas Suassuna. O número dos cheques e a origem do dinheiro podem ser devidamente comprovados, fragilizando em demasia o argumento de que Lula seria o real dono da propriedade.
Resta a agravante das reformas de ampliação do sítio, que teriam sido supostamente financiadas e realizadas pelas empreiteiras OAS e Odebrecht. Neste caso, há de se admitir que existem indícios fortes de benefício injustificado para os proprietários do sítio e, indiretamente, para Lula e sua família.
O que cabe questionar, no entanto, é se tais benefícios podem ser diretamente ligados a algum ato criminoso de Lula, ou se foram apenas “agrados” dos grandes empresários ao ex-presidente. Cabe recordar que Lula é uma figura com trânsito internacional e que promove sobremaneira o Brasil e suas empresas no exterior, fato de grande interesse destes empresários.
Um “agrado” pode ser moralmente indevido, mas não é necessariamente um crime. “Agrados” são corriqueiros no mundo dos negócios, como uma forma de manter o cliente satisfeito, de cair nas boas graças de uma personalidade importante, ou mesmo de manter as boas relações com uma pessoa ou grupo desejado.
O policial que ganha o café fiado na padaria, o cliente fiel que recebe um desconto especial pela preferência ou o parceiro comercial que oferta um vinho ou um jantar especial ao final de um grande projeto: Todos “agrados”, alguns talvez moralmente condenáveis, mas nenhum deles ilegal.
Sendo assim, é fundamental aos acusadores estabelecer o nexo criminoso, ou seja, estabelecer qual benefício ilícito direto Lula teria feito para receber os “agrados” das empreiteiras. Apenas desta forma seria possível caracterizar o “agrado” como uma atitude de fato ilegal, passando-se da ilação para a comprovação do crime.
Falar abstratamente em “contratos” é insuficiente como prova para condenar Lula, sendo necessário apontar (com provas) exatamente quais contratos e de que maneira o ex-presidente teria operado para beneficiar ilegalmente as empresas.
Esta comprovação, no entanto, ainda não deu o ar da graça nos processos, segundo as informações disponíveis sobre eles. Até o momento, não há evidência material ou testemunhal de que Lula teria agido irregularmente para beneficiar as empreiteiras investigadas na Lava-Jato.
Por fim, a acusação de que as verbas para o Instituto Lula e a LILS teriam origem em propina claramente são fruto de ilação, ao menos até o momento. Na prática, é praxe no mundo todo que ex-presidentes tenham suas atividades financiadas por grandes empresas.
Para ficarmos no exemplo brasileiro, o Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), muito antes do surgimento do Instituto Lula, já dependia pesadamente do financiamento das grandes empreiteiras nacionais, seja por meio de doações, seja por meio do pagamento de palestras.
Da mesma forma, os presidentes americanos e de vários outros países do mundo têm suas fundações financiadas por grandes empresários nacionais e internacionais, sendo esta uma prática usual do mundo político e corporativo. Apesar desta observação de ordem prática, o fato pode ser considerado por muitos imoral, o que não necessariamente afeta a legalidade destas relações.
Aparentemente, nenhuma acusação possui (até o momento) elementos probatórios que transformem Lula em um insuspeito criminoso. Ilações sempre podem ser feitas, mas são insuficientes para fundamentar juridicamente acusações tão graves quanto as que estão sendo feitas.
Com os elementos atuais, Lula pode ser considerado por alguns “moralmente” culpado de se relacionar estreitamente com empreiteiras, mas parece ser “legalmente” inocente das acusações de crime que lhe imputam.
Talvez a questão que poucos se façam e que mais demonstre a fragilidade das acusações contra Lula seja a seguinte: por que seria preciso pagar propinas milionárias aos diretores da Petrobras, se com pequenos agrados seria possível “subornar” o presidente da República?
Para além da falta de provas, o que assusta nas ilações feitas pelos acusadores de Lula é a falta de lógica. Parece que a razão se perdeu em meio ao embate político, fazendo com que o ódio abrisse os olhos de justiça: lamentavelmente, os olhos que deveriam estar devidamente vendados só enxergam Lula.

*Guilherme Melo é professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP). O texto foi originalmente publicado no site BrasilDebate

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Fim da Ilusão. Não era Democracia.

Vivíamos, desde o fim da ditadura militar nos iludindo como se vivêssemos numa democracia. Democracia é como segurança não pode ser mais ou menos. Ou é ou não é.

E é disso que gostaríamos de falar, de Democracia. As pessoas desde o fim do regime militar estavam vivendo uma ilusão, em virtude de estarem escolhendo seus representantes, aparentemente, de forma normal, entendiam que tudo estava indo muito bem e não conseguiam ver o que estava acontecendo verdadeiramente, ou seja, à elite completamente desprovida de valores morais, uma total inversão de valores, a convivência com a corrupção sendo considerada uma coisa normal, porém como tudo transcorria como todo o dia, todos achavam que tudo ia bem e se encontravam completamente seguros dentro daquele contexto, entretanto, o fim veio e, com certeza, estamos sem saber direito o que será daqui para frente. Mas não vivíamos numa democracia? Não, #NoBrasilNuncaHouveDemocracia. Numa Democracia, todos têm direitos, inclusive a maioria. O que estamos vendo no momento, é típico de autoritarismo, de barbárie, onde nem a maioria consegue manter seus direitos, mesmo legítimos, pois, a força, mantida por uma minoria canalha, determina o destino de milhões de pessoas.

Na ditadura não tínhamos liberdade, e aparentemente conquistamos a duras penas uma liberdade necessária, porém limitada. A liberdade plena era um dos pressupostos ou talvez o único que tentávamos conquistar para sacramentar a democracia.

Sem voto, sem legitimidade, mas com o conluio dos poderes do Judiciário, Legislativo e mais com as vistas grossas da mídia, o país mostra realmente o que sempre fomos: Uma República de Bananas.

Definitivamente não se sustenta um governo que entra pela porta dos fundos, governa de costas pra sociedade, cercado de envolvidos, como o próprio intruso presidente, na Lava Jato. O golpe para afastar Dilma usou o instituto do impeachment, capenga por falta de crime de responsabilidade. Querem, por um lado, como uma penca de gravações mostram, tentar barrar a Lava Jato. Por outro, trazer de volta um projeto econômico anti povo derrotado nas urnas desde 2002.
Sidney Pires - Facebook.

sábado, 28 de maio de 2016

Conversas mais que esclarecedoras. Renan e Machado isentam Dilma e Lula.

Primeira conversa:

SÉRGIO MACHADO - Agora, Renan, a situação tá grave.

RENAN CALHEIROS - Grave e vai complicar. Porque Andrade fazer [delação], Odebrecht, OAS. [falando a outra pessoa, pede para ser feito um telefonema a um jornalista]

MACHADO - Todos vão fazer.

RENAN - Todos vão fazer.

MACHADO - E essa é a preocupação. Porque é o seguinte, ela [Dilma] não se sustenta mais. Ela tem três saídas. A mais simples seria ela pedir licença...

RENAN - Eu tive essa conversa com ela.

MACHADO - Ela continuar presidente, o Michel assumiria e garantiria ela e o Lula, fazia um grande acordo. Ela tem três saídas: licença, renúncia ou impeachment. E vai ser rápido. A mais segura para ela é pedir licença e continuar presidente. Se ela continuar presidente, o Michel não é um sacana...

RENAN - A melhor solução para ela é um acordo que a turma topa. Não com ela. A negociação é botar, é fazer o parlamentarismo e fazer o plebiscito, se o Supremo permitir, daqui a três anos. Aí prepara a eleição, mantém a eleição, presidente com nova...

[atende um telefonema com um jornalista]

RENAN - A perspectiva é daquele nosso amigo.

MACHADO - Meu amigo, então é isso, você tem trinta dias para resolver essa crise, não tem mais do que isso. A economia não se sustenta mais, está explodindo...

RENAN - Queres que eu faça uma avaliação verdadeira? Não acredito em 30 dias, não. Porque se a Odebrecht fala e essa mulher do João Santana fala, que é o que está posto...
[apresenta um secretário de governo de Alagoas]

MACHADO - O Janot é um filho da puta da maior, da maior...

RENAN - O Janot... [inaudível]

MACHADO - O Janot tem certeza que eu sou o caixa de vocês. Então o que que ele quer fazer? Ele não encontrou nada nem vai encontrar nada. Então ele quer me desvincular de vocês, mediante Ricardo e mediante e mediante do Paulo Roberto, dos 500 [mil reais], e me jogar para o Moro. E aí ele acha que o Moro, o Moro vai me mandar prender, aí quebra a resistência e aí fudeu. Então a gente de precisa [inaudível] presidente Sarney ter de encontro... Porque se me jogar lá embaixo, eu estou fodido. E aí fica uma coisa... E isso não é análise, ele está insinuando para pessoas que eu devo fazer [delação], aquela coisa toda... E isso não dá, isso quebra tudo isso que está sendo feito.

RENAN - [inaudível]

MACHADO - Renan, esse cara é mau, é mau, é mau. Agora, tem que administrar isso direito. Inclusive eu estou aqui desde ontem... Tem que ter uma ideia de como vai ser. Porque se esse vagabundo jogar lá embaixo, aí é uma merda. Queria ver se fazia uma conversa, vocês, que alternativa teria, porque aí eu me fodo.

RENAN - Sarney.

MACHADO - Sarney, fazer uma conversa particular. Com Romero, sei lá. E ver o que sai disso. Eu estou aqui para esperar vocês para poder ver, agora, é um vagabundo. Ele não tem nada contra você nem contra mim.

RENAN - Me disse [inaudível] 'ó, se o Renan tiver feito alguma coisa, que não sei, mas esse cara, porra, é um gênio. Porque nós não achamos nada.'

MACHADO - E já procuraram tudo.

RENAN - Tudo.

MACHADO - E não tem. Se tivesse alguma coisa contra você, já tinha jogado... E se tivesse coisa contra mim [inaudível]. A pressão que ele quer usar, que está insinuando, é que...

RENAN - Usou todo mundo.

MACHADO -...está dando prazos etc é que vai me apartar de vocês. Mesma coisa, já deu sinal com a filha do Eduardo e a mulher... Aquele negócio da filha do Eduardo, a porra da menina não tem nada, Renan, inclusive falsificaram o documento dela. Ela só é usuária de um cartão de crédito. E esse é o caminho [inaudível] das delações. Então precisa ser feito algo no Brasil para poder mudar jogo porque ninguém vai aguentar. Delcídio vai dizer alguma coisa de você?

RENAN - Deus me livre, Delcídio é o mais perigoso do mundo. O acordo [inaudível] era para ele gravar a gente, eu acho, fazer aquele negócio que o J Hawilla fez.

MACHADO - Que filho da puta, rapaz.

RENAN - É um rebotalho de gente.

MACHADO - E vocês trabalhando para poder salvar ele.

RENAN - [Mudando de assunto] Bom, isso aí então tem que conversar com o Sarney, com o teu advogado, que é muito bom. [inaudível] na delação.

MACHADO - Advogado não resolve isso.

RENAN - Traçar estratégia. [inaudível]

MACHADO - [inaudível] quanto a isso aí só tem estratégia política, o que se pode fazer.

RENAN - [inaudível] advogado, conversar, né, para agir judicialmente.

MACHADO - Como é que você sugeriria, daqui eu vou passar na casa do presidente Sarney.

RENAN - [inaudível]

MACHADO - Onde?

RENAN - Lá, ou na casa do Romero.

MACHADO - Na casa do Romero. Tá certo. Que horas mais ou menos?

RENAN - Não, a hora que você quiser eu vou estar por aqui, eu não vou sair não, eu vou só mais tarde vou encontrar o Michel.

MACHADO - Michel, como é que está, como é que está tua relação com o Michel?

RENAN - Michel, eu disse pra ele, tem que sumir, rapaz. Nós estamos apoiando ele, porque não é interessante brigar. Mas ele errou muito, negócio de Eduardo Cunha... O Jader me reclamou aqui, ele foi lá na casa dele e ele estava lá o Eduardo Cunha. Aí o Jader disse, 'porra, também é demais, né'.

MACHADO - Renan, não sei se tu viu, um material que saiu na quinta ou sexta-feira, no UOL, um jornalista aqui, dizendo que quinta-feira tinha viajado às pressas...

RENAN - É, sacanagem.

MACHADO - Tu viu?

RENAN - Vi.

MACHADO - E que estava sendo montada operação no Nordeste com Polícia Federal, o caralho, na quinta-feira.

RENAN - Eu vi.

MACHADO - Então, meu amigo, a gente tem que pensar como é que encontra uma saída para isso aí, porque isso aí...

RENAN - Porque não...

MACHADO - Renan, só se fosse imbecil. Como é que tu vai sentar numa mesa para negociar e diz que está ameaçado de preso, pô? Só quem não te conhece. É um imbecil.

RENAN - Tem que ter um fato contra mim.

MACHADO - Mas mesmo que tivesse, você não ia dizer, porra, não ia se fragilizar, não é imbecil. Agora, a Globo passou de qualquer limite, Renan.

RENAN - Eu marquei para segunda-feira uma conversa inicial com [inaudível] para marcar... Ela me disse que a conversa dela com João Roberto [Marinho] foi desastrosa. Ele disse para ela... Ela reclamou. Ele disse para ela que não tinha como influir. Ela disse que tinha como influir, porque ele influiu em situações semelhantes, o que é verdade. E ele disse que está acontecendo um efeito manada no Brasil contra o governo.

MACHADO - Tá mesmo. Ela acabou. E o Lula, como foi a conversa com o Lula?

RENAN - O Lula está consciente, o Lula disse, acha que a qualquer momento pode ser preso. Acho até que ele sabia desse pedido de prisão lá...

MACHADO - E ele estava, está disposto a assumir o governo?

RENAN - Aí eu defendi, me perguntou, me chamou num canto. Eu acho que essa hipótese, eu disse a ele, tem que ser guardada, não pode falar nisso. Porque se houver um quadro, que é pior que há, de radicalização institucional, e ela resolva ficar, para guerra...
MACHADO - Ela não tem força, Renan.

RENAN - Mas aí, nesse caso, ela tem que se ancorar nele. Que é para ir para lá e montar um governo. Esse aí é o parlamentarismo sem o Lula, é o branco, entendeu?

MACHADO - Mas, Renan, com as informações que você tem, que a Odebrecht vai tacar tiro no peito dela, não tem mais jeito.

RENAN - Tem não, porque vai mostrar as contas. E a mulher é [inaudível].

MACHADO - Acabou, não tem mais jeito. Então a melhor solução para ela, não sei quem podia dizer, é renunciar ou pedir licença.

RENAN - Isso [inaudível]. Ela avaliou esse cenário todo. Não deixei ela falar sobre a renúncia. Primeiro cenário, a coisa da renúncia. Aí ela, aí quando ela foi falar, eu disse, 'não fale não, pelo que conheço, a senhora prefere morrer'. Coisa que é para deixar a pessoa... Aí vai: impeachment. 'Eu sinceramente acho que vai ser traumático. O PT vai ser desaparelhado do poder'.

MACHADO -


RENAN - Reacendeu. Aí tudo mundo, legalista... Que aí não entra só o petista, entra o legalista. Ontem o Cassio falou.
MACHADO - É o seguinte, o PSDB, eu tenho a informação, se convenceu de que eles é o próximo da vez.
RENAN - [concordando] Não, o Aécio disse isso lá. Que eu sou a esperança única que eles têm de alguém para fazer o...
MACHADO - [Interrompendo] O Cunha, o Cunha. O Supremo. Fazer um pacto de Caxias, vamos passar uma borracha no Brasil e vamos daqui para a frente. Ninguém mexeu com isso. E esses caras do...
RENAN - Antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação e estabelece isso.
MACHADO - Acaba com esse negócio da segunda instância, que está apavorando todo mundo.
RENAN - A lei diz que não pode prender depois da segunda instância, e ele aí dá uma decisão, interpreta isso e acaba isso.
MACHADO - Acaba isso.
RENAN - E, em segundo lugar, negocia a transição com eles [ministros do STF].
MACHADO - Com eles, eles têm que estar juntos. E eles não negociam com ela.

RENAN - Não negociam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda –estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: 'Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável'.

MACHADO - Eu nunca vi um Supremo tão merda, e o novo Supremo, com essa mulher, vai ser pior ainda. [...]

MACHADO - [...] Como é que uma presidente não tem um plano B nem C? Ela baixou a guarda. [inaudível]

RENAN - Estamos perdendo a condição política. Todo mundo.

MACHADO - [inaudível] com Aécio. Você está com a bola na mão. O Michel é o elemento número um dessa solução, a meu ver. Com todos os defeitos que ele tem.

RENAN - Primeiro eu disse a ele, 'Michel, você tem que ficar calado, não fala, não fala'.

MACHADO - [inaudível] Negócio do partido.

RENAN - Foi, foi [inaudível] brigar, né.

MACHADO - A bola está no seu colo. Não tem um cara na República mais importante que você hoje. Porque você tem trânsito com todo mundo. Essa tua conversa com o PSDB, tu ganhou uma força que tu não tinha. Então [inaudível] para salvar o Brasil. E esse negócio só salva se botar todo mundo. Porque deixar esse Moro do jeito que ele está, disposto como ele está, com 18% de popularidade de pesquisa, vai dar merda. Isso que você diz, se for ruptura, vai ter conflito social. Vai morrer gente.

RENAN - Vai, vai. E aí tem que botar o Lula. Porque é a intuição dele...

MACHADO - Aí o Lula tem que assumir a Casa Civil e ser o primeiro ministro, esse é o governo. Ela não tem mais condição, Renan, não tem condição de nada. Agora, quem vai botar esse guizo nela?

RENAN - Não, [com] ela eu converso, quem conversa com ela sou eu, rapaz.

MACHADO - Seguinte, vou fazer o seguinte, vou passar no presidente, peço para ele marcar um horário na casa do Romero.

RENAN - Ou na casa dele. Na casa dele chega muita gente também.

MACHADO - É, no Romero chega menos gente.

RENAN - Menos gente.

MACHADO - Então marco no Romero e encontra nós três. Pronto, acabou. [levanta-se e começam a se despedir] Amigo, não perca essa bola, está no seu colo. Só tem você hoje. [caminhando] Caiu no seu colo e você é um cara predestinado. Aqui não é dedução não, é informação. Ele está querendo me seduzir, porra.

RENAN - Eu sei, eu sei. Ele quem?

MACHADO - O bicho daqui, o Janot.

RENAN - Mandando recado?

MACHADO - Mandando recado.

RENAN - Isso é?

MACHADO - É... Porra. É coisa que tem que conversar com muita habilidade para não chegar lá.

RENAN - É. É.

MACHADO - Falando em prazo... [se despedem]

Segunda conversa:


MACHADO - [...] A meu ver, a grande chance, Renan, que a gente tem, é correr com aquele semi-parlamentarismo...

RENAN - Eu também acho.

MACHADO -...paralelo, não importa com o impeach... Com o impeachment de um lado e o semi-parlamentarismo do outro.

RENAN - Até se não dá em nada, dá no impeachment.

MACHADO - Dá no impeachment.

RENAN - É plano A e plano B.

MACHADO - Por ser semi-parlamentarismo já gera para a sociedade essa expectativa [inaudível]. E no bojo do semi-parlamentarismo fazer uma ampla negociação para [inaudível].

RENAN - Mas o que precisa fazer, só precisa tres três coisas: reforma política, naqueles dois pontos, o fim da proibição...

MACHADO - [Interrompendo] São cinco pontos:
[...]

RENAN - O voto em lista é importante. [inaudível] Só pode fazer delação... Só pode solto, não pode preso. Isso é uma maneira e toda a sociedade compreende que isso é uma tortura.

MACHADO - Outra coisa, essa cagada que os procuradores fizeram, o jogo virou um pouco em termos de responsabilidade [...]. Qual a importância do PSDB... O PSDB teve uma posição já mais racional. Agora, ela [Dilma] não tem mais solução, Renan, ela é uma doença terminal e não tem capacidade de renunciar a nada. [inaudível]
[...]

MACHADO - Me disseram que vai. Dentro da leniência botaram outras pessoas, executivos para falar. Agora, meu trato com essas empresas, Renan, é com os donos. Quer dizer, se botarem, vai dar uma merda geral, eu nunca falei com executivo.

RENAN - Não vão botar, não. [inaudível] E da leniência, detalhar mais. A leniência não está clara ainda, é uma das coisas que tem que entrar na...

MACHADO -...No pacote.

RENAN - No pacote.

MACHADO - E tem que encontrar, Renan, como foi feito na Anistia, com os militares, um processo que diz assim: 'Vamos passar o Brasil a limpo, daqui para frente é assim, pra trás...' [bate palmas] Porque senão esse pessoal vão ficar eternamente com uma espada na cabeça, não importa o governo, tudo é igual.

RENAN - [concordando] Não, todo mundo quer apertar. É para me deixar prisioneiro trabalhando. Eu estava reclamando aqui.

MACHADO - Todos os dias.
RENAN - Toda hora, eu não consigo mais cuidar de nada.
[...]

MACHADO - E tá todo mundo sentindo um aperto nos ombros. Está todo mundo sentindo um aperto nos ombros.

RENAN - E tudo com medo.

MACHADO - Renan, não sobra ninguém, Renan!

RENAN - Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'

Machado

MACHADO - Não dá pra ficar como está, precisa encontrar uma solução, porque se não vai todo mundo... Moeda de troca é preservar o governo [inaudível].

RENAN - [inaudível] sexta-feira. Conversa muito ruim, a conversa com a menina da Folha... Otavinho [a conversa] foi muito melhor. Otavinho reconheceu que tem exageros, eles próprios tem cometido exageros e o João [provável referência a João Roberto Marinho] com aquela conversa de sempre, que não manda. [...] Ela [Dilma] disse a ele 'João, vocês tratam diferentemente de casos iguais. Nós temos vários indicativos'. E ele dizendo 'isso virou uma manada, uma manada, está todo mundo contra o governo.'

MACHADO - Efeito manada.

RENAN - Efeito manada. Quer dizer, uma maneira sutil de dizer "acabou", né.
[...]

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Muro da Vergonha brasileiro

O Muro da Vergonha brasileiro

Por Renato Motta.

Um muro está sendo erguido diante do Congresso Nacional. Debaixo da proclamada necessidade de proteger a integridade física dos manifestantes contra e a favor do Impeachment, o que surge é a dolorosa e física constatação de que o Brasil rachou ao meio.

Como aconteceu no muro de Berlim, ficou provado que só existe uma verdade e um caminho: os de quem está do nosso lado do muro. E foram para o espaço cinco séculos de miscigenação, a aceitação mútua, a pluralidade de credos, a convivência pacífica de diferentes culturas, a festejada alegria do povo, a arte variada e a rica gastronomia regional. Ficamos sob uma dicotomia engessada e patética: Nós contra Eles.
E o muro no meio.

Curiosamente, dentro do Congresso a união e a fraternidade se mantêm entre os políticos de variados matizes. Todos ali dentro querem o mesmo: defender os próprios interesses; cuidar de encher os bolsos; conseguir vantagens, benefícios, promessas e cargos. Enquanto o povo estiver lá fora, cortado ao meio pelo muro da vergonha, os deputados oponentes estarão no centro desse estranho circo onde os palhaços ficam na plateia. Suas Excelências continuarão tomando cafezinhos em meio aos trabalhos, trocando tapinhas nas costas e tentando organizar o próximo show pirotécnico no picadeiro dos amorais.

A culpa dessa aberração não é de Dilma, nem de Temer, nem de Lula, nem de Cunha, nem de Renan, nem de Aécio, nem de Marina. Eles não são demônios, nem santos, nem anjos, nem deuses... são humanos. A culpa também não é minha nem sua, porque nós votamos em quem confiamos, embora os eleitos tenham o bizarro hábito de sequestrar repetidamente a nossa esperança em um país melhor.

E de quem é a culpa, então? A culpa é de uma estrutura política arcaica e apodrecida, baseada em trocas de favores, no “toma lá, dá cá”, na falta de compromisso com o futuro do país e com o amanhã de filhos e netos da nação, que se acotovelam e são esmagados no muro da vergonha brasileiro. Eles já não choram de dor nem de fome; choram de ódio e decepção; de desespero e perplexidade. Enquanto lá dentro, nessa ilha que se chama Brasília... nessa Bastilha que se chama Bras-ilha o cafezinho corre solto e os tapinhas, abraços, beijos e promessas se perpetuam.

Triste país o que passa por tanto sofrimento e ainda é obrigado a enfrentar muros que escondem o futuro. Enquanto o resto do mundo assiste, atônito, ao desmoronar do nosso castelo de sonhos, uma coisa fica clara: vença quem vencer, uma derrota já está garantida: a derrota de cada brasileiro.

domingo, 10 de abril de 2016

Manoel Jr PMDB-PB opta pelo Golpe sem apontar Crime de Dilma

Manoel Jr opta pelo Golpe sem apontar Crime de Dilma

O deputado federal Manoel Júnior fez nesta sexta-feira o esperado anúncio posicionando-se a favor do Impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, cujo processo tramita na Câmara Federal seguindo o relator Joavir Arantes.
Ele argumenta que toma esta decisão porque “jamais poderia me posicionar contra o Povo brasileiro diante do sentimento de indignação da sociedade”. Manoel Júnior argumenta aposição ainda porque “o impeachment da presidenta Dilma é desejavel por 70% dos brasileiros”.

SEM ABORDAR A ESSẼNCIA

O parlamentar pemedebista em nenhum trecho da Nota que fez distribuir toca na questão de fundo do Impeachment, a tal argumentação do Relator baseando-se em pedido formulado por Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr de que a presidenta teria cometido Pedaladas Fiscais.

Trocando em miúdos,em nenhum dos pontos de argumentação Manoel Júnior fundamenta sua posição baseado no Estado de Direito, porque para existência de processo de Impeachment se faz fundamental e indispensável um Fator Determinante, um Crime de Responsabilidade – algo que inexiste no rito atual contra Dilma Rousseff.

A CAUSA DA OPÇÃO

Mesmo que diga e repita nos vários ambientes de que não tem nada a ver com o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, na prática a opção anunciada agora pelo parlamentar comprova exatamente o contrário porque, todos sabem, sem a dedicação do deputado fluminense o Impeachment sequer estava acontecendo.

O encaminhamento do voto do parlamentar vai de encontro à História do PMDB como partido da Redemocratização e que sempre primou pela legalidade comprovada dos fatos – algo que inexiste no caso Dilma.

A fragilidade de seus argumentos pode ser constatada quando ele se espanta com o nivel de corrupção no País, mas ao invés de combatê-la a avaliza Eduardo Cunha acumulando diversos processos de corrupção e inúmeras delações acusando-o de desvios de recursos públicos.

Ao agir assim, ele e o PMDB entram na contramão da História e do que exige a sociedade brasileira e paraibana.

EFEITOS DA DECISÃO

Decisivamente, o parlamentar que sempre teve boa parte da votação forjada perante os formadores de opinião perde a empatia dos setores organizados no campo progressista e se alinha aos segmentos conservadores e anti-PT do Estado.

Esta realidade será a partir de agora o elemento simbólico que carregará doravante fortalecendo sua aliança com o PSDB e, sobretudo, com o senador Cássio Cunha Lima – principal lider contra Dilma, Lula e o PT, devendo nos próximos dias anunciar seu apoio à candidatura do deputado para prefeito de João Pessoa.

ULTIMA

“Onde houver dúvidas/ que eu leve a Fé...”

sábado, 9 de abril de 2016

Não é golpe, é muito pior!

Você está sendo enganado, caro leitor. A trapaça narrativa funciona em três etapas. Na primeira, um sujeito pergunta qual é o contrário de preto e alguém responde que é branco. Em seguida, ele pergunta qual é o contrário de claro e alguém responde que é escuro. Por último, o mesmo indivíduo pergunta qual é o contrário de verde, mas ninguém responde, pois isso, obviamente, não existe.

Só que não é verdade. O contrário de verde é maduro, embora você não tenha pensado nisso. O problema é que fomos induzidos a pensar em termos cromáticos, esquecendo que um raciocínio mais complexo nos levaria a ver outros lados da questão.

A narrativa do impeachment carrega o mesmo vício. Quando um jurista é perguntado se o impedimento da presidente é golpe, ele responde que não, já que o instrumento está previsto na constituição. Ou seja, é branco, não é preto. Mas se a pergunta vier acompanhada do termo "sem crime de responsabilidade", a resposta será diferente. Nesse caso, como tal crime está sujeito a interpretações, pode ser golpe. E há muitos juristas que acreditam nisso. Ou seja, o contrário de verde existe e é muito provável que seja a palavra "maduro". É muito provável que seja um golpe.

O golpe, no entanto, não é apenas na presidente. Se o pensamento da população é conduzido por uma narrativa viciada e massificada, o golpe é em todos nós, que acabamos caindo em uma espiral de concordância sem crítica, tratados como boiada, uma simples massa de manobra.

Já faz alguns anos que somos inundados com um enredo sobre a crise que culpa apenas um partido. É muito provável que ele seja culpado, mas será o único? Não deveríamos pensar na responsabilidade do Congresso, dos empresários corruptores e na nossa própria parcela de culpa?

E o que dizer sobre os motivos para o impeachment? Será que estamos informados sobre as tais pedaladas fiscais? Você, caro leitor, sabe o que elas significam e por que foram apresentadas como razão para derrubar a presidente? Você sabe que o processo foi aceito por um presidente da câmara que é réu no STF? Sabe que, em caso de impeachment, assume o partido que está há trinta anos no poder e tem diversos envolvidos na operação Lava Jato?

O jornalismo não é o espelho da realidade, como nos fazem acreditar. O jornalismo ajuda a construir a própria realidade através da narrativa dos fatos, que se dá pela escolha de linguagens, entrevistados, ângulos etc. Tais escolhas são feitas por indivíduos que têm preconceitos, juízos de valor e diversos outros filtros. Inclusive o autor deste texto, de quem você deve desconfiar em primeiro lugar.

Não vai ter golpe se você fizer uma crítica constante da informação que recebe.

Não vai ter golpe se você procurar ouvir os diversos lados da questão.

Não vai ter golpe se você descobrir que o contrário de verde não é amarelo.

Nem vermelho.

Felipe Pena é jornalista, psicólogo e escritor. É autor de 15 livros, entre eles o romance Fábrica de Diplomas.

quarta-feira, 30 de março de 2016

“Temer Presidente”.

"Temer Presidente" O delírio de quem acha que vai ficar no poder sem voto.

Por Fernando Brito

Os gritos de “Temer Presidente” da reunião do PMDB, que conta já ter derrubado o Governo, são a expressão patética de quem entende a política apenas como um jogo de apoios, intrigas, cargos e golpes de esperteza.

Num país onde nenhuma força política é capaz de se sustentar sozinha no Governo, é inacreditável que a cúpula do PMDB – e a cúpula do PMDB hoje são Temer, Renan e Cunha – ache que possa se manter no poder apenas com acertos conchavados e entrega de nacos do Governo ao PSDB e ao baixo clero da Câmara.

Li no Facebook – não cito o autor por não saber se o nome conhecido corresponde à realidade – que ” Temer, e o PMDB, se preparam para praticar a segunda coisa que melhor sabem fazer: trair. A primeira é se aliar a quem quer que seja. A grande questão é que por mais que a traição agrade a alguns setores, ninguém perdoa os traidores. Michel Temer entrará particularmente para a história como um Judas em busca de suas trinta moedas. O seu destino, tal qual Judas, será a corda ao pescoço”.

No século 21, numa sociedade de massas e na sexta, sétima ou oitava economia do mundo (depende das circunstâncias qual delas) como é o Brasil, Governo algum é capaz de se sustentar sem legitimidade.

Vejam que mesmo com a eleição de 2014, bastou a não aceitação do resultado e a adoção do programa econômico do adversário para que a legitimidade de Dilma, ainda que com votos, se corroesse.

Que dirá a de quem não teve e não teria voto algum.

Há uma deficiência de leitura política da elite brasileira própria e coerente com o seu atraso.

Somos uma sociedade de massas, muito, mas muito mais do que éramos há meio século, quando um golpe militar e político teve poder para implantar a censura e o medo.

O que vão fazer com a internet? Desplugá-la? Abolir o Facebook, encarcerar blogueiros, mandá-los ao exílio?

Só rindo sarcasticamente disso.

‘Temer Presidente” pode ser gritado num salão com um cento de políticos, mas não pode ser gritado em esquina alguma do país.

A história do golpe de 2016 passa-se, paradoxalmente, antes em seu futuro que em seu presente.

Neste, dado o estado vergonhoso das instituições, poderá até prevalecer.

Mas, no “day after“, não terá como se impor.

Seremos um país sem governo legítimo, sequer legítimo na alegação de que teve votos para se constituir.

Nem mesmo nos atos da direita na Avenida Paulista terá aceitação, se não lhes der sangue humano para beber.

Com Temer ou sem ele, ou caminho de um governo nascido do golpe é o do autoritarismo.

E o autoritarismo é o passado, do qual o poeta, este vidente, já cantou: ” é uma roupa que não nos serve mais”.

sábado, 19 de março de 2016

O MINISTRO BARROSO NÃO PODE MAIS SE OMITIR DIANTE DAS BARBARIDADES DE GILMAR.

O MINISTRO BARROSO NÃO PODE MAIS SE OMITIR DIANTE DAS BARBARIDADES DE GILMAR.
POR PAULO NOGUEIRA.


Sem um único voto exceto o de FHC ao conduzi-lo ao STF, Gilmar Mendes é um dos mais

desequilibrados, mais petulantes e mais descarados políticos em ação no país.

Mas qualquer coisa que ele faça já não é surpresa.

O que realmente surpreende é a falta de resposta à altura para seu trabalho cotidiano de

desmoralização da Justiça.

Gilmar se vale da omissão generalizada – excetuada aí a voz das ruas – para continuar a cometer

suas barbaridades.

Ele não se tornou este monstro jurídico de um dia para o outro. Veio subindo degraus, sem que

ninguém se opusesse, num caso de tolerância 100%.

Como bobo não é, notou desde o princípio que a imprensa lhe deu retaguarda e apoio para as

crescentes transgressões.

Tarde demais agora para fazer alguma coisa?

Não, não e não. Numa de suas sentenças mais sábias, Epicuro disse que nunca é cedo demais e nem

tarde demais para fazer qualquer coisa virtuosa.

Gilmar Mendes pode e deve ser detido.

Seu colega Barroso deu um primeiro passo, dias atrás. Numa sessão do STF, ele disse que não se

comporta como se estivesse num diretório acadêmico e nem age como comentarista político. Era uma referência ao vociferante colega Gilmar.

Foi insuficiente, mas foi alguma coisa.

Trata-se, agora, de elevar o tom. Não basta sussurrar quando o adversário berra. Não basta apelar

ao bom senso quando ele transgride deliberadamente.

Situações extremas demandam respostas à altura. E este é o caso de Gilmar.

Sob pena de conivência com a desintegração do Estado de Direito incentivada por Gilmar, seus

pares no STF que zelam pelas instituições têm que deixar clara sua reprovação.

Gilmar transformou o STF num circo extraordinariamente perigoso para as instituições.

Nada seria tão importante num processo de reabilitação moral da Justiça quanto remover este foco

abjeto de afronta de injustiça.

Gilmar é um exemplo péssimo para os jovens aspirantes a seguir a carreira na Justiça. Ele é a

negação daquilo que um juiz deve ser.

Bom juiz é aquele cuja decisão não se conhece antecipadamente. Ele vai examinar os fatos e depois se pronunciar.

Você sabe exatamente como ele vai votar. Numa casa de apostas de Londres, decisões de Gilmar não pagariam nada. Porque os apostadores saberiam exatamente o que ele faria.

Essa parábola não poderia ser mais reveladora.

Tudo isso para reforçar a necessidade de uma reação enérgica a este juiz-que-não-é-juiz.

Ninguém com mais autoridade que Barroso para liderar isso.

Barroso não tem escolha. Ou ele mostra à sociedade que Gilmar não é referência de juiz e o

desmascara vigorosamente – ou passará para história como mais um personagem de um período

sinistro da Suprema Corte e da Justiça como um todo.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Acham Que Pegaram Lula E Dilma. Na Verdade, Pegaram Você

“Acham Que Pegaram Lula E Dilma. Na Verdade, Pegaram Você”, Diz Renato Janine Ribeiro

Para o filósofo e ex-ministro, o grampo de Dilma e Lula abre precedente para que arbitrariedades sejam cometidas contra qualquer cidadão.
Em um texto publicado em sua página pessoal no Facebook, o filósofo e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, criticou o grampo de conversas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta Dilma Rousseff, interceptado pela Polícia Federal e divulgado na imprensa do País na noite de ontem (16).
Ao comentar o episódio, Janine enfatizou o caráter arbitrário da medida, condenada por juristas como Dalmo Dallari, e advertiu que ela abre precedente para que decisões de exceção sejam cometidas contra qualquer cidadão brasileiro.

Leia a seguir o texto na íntegra

“Esqueçam por um momento que foram Dilma e Lula os grampeados ilegalmente ontem à tarde. Pensem que, agora, não há mais limite algum ao grampo ilegal e a seu uso igualmente ilegal. A qualquer momento, um policial e um juiz podem mandar gravar você. Você, empresário, psicólogo, o que seja. Conheço psicólogos que atendem pelo telefone. Podem ser grampeados – e com boas razões, porque, afinal, há clientes que superfaturam ou corrompem, e que contam isso ao terapeuta. Há sacerdotes que ouvem confissões. Confissão é de coisa errada, não é? Ótima razão para gravar e apurar. Empresários podem sonegar, ótima justificativa para grampeá-los, todos, não é? Mesmo que não soneguem. Isso já começou, quando o sigilo acusado-advogado foi rompido. Claro, o acusado é bandido, não é? E nestas gravações, caro amigo, cara amiga, podem descobrir coisas que nem desonestas são, mas que vão te causar um mal danado. Podem descobrir, empresário, que você pretende lançar um novo produto na praça. E podem divulgar este segredo para seu concorrente. Podem descobrir que o analisando teve um filho antes de casar, que pretende reconhecê-lo, mas que está difícil fazer isso porque vai dar problemas com o cônjuge. Todo mundo tem uma vida íntima. Esta vida íntima pode ser gravada. Pode ser divulgada pela Internet ou vendida a uma pessoa que não gosta de você.

É por isso que as liberdades burguesas – faço questão de usar o nome meio pejorativo que a esquerda lhes deu, mas que tem uma certa razão, porque são liberdades do indivíduo contra a interferência do Estado – são tão importantes. Hoje muitos estão felizes porque acham que pegaram Lula e Dilma. Na verdade, pegaram você. Você não tem mais proteção contra os agentes da lei. Eles farão com você o que quiserem. Poderão chantagear você.

E não venha com o quem não deve não teme. A vida íntima não é feita de ilegalidades. Ela é feita de segredos, sim, que ninguém tem o direito de invadir. Ninguém tem o direito de saber uma multidão de coisas que são suas. OK, Mark Zuckerberg sabe. Mas ele está interessado em big data e não em você especificamente. Então fique contente, e quando sua vida pessoal for exposta, lembre que você apoiou isso.

(Reflexão depois de ouvir a gravação Lula-Eduardo Paes. Nada de relevante para a sociedade saber, Nada mesmo. Puro exercício de prepotência: vejam quem manda. E mesmo isso – a brincadeira de Paes que Lula, você tem alma de pobre – está vindo à tona. Quando pegarem sua vida íntima, debocharem de seus gostos, venderem sua intimidade, aproveite sua descida aos infernos para fazer contrição, confissão, talvez comunhão).”

segunda-feira, 14 de março de 2016

Policia Federal como bolo de cereja do dia 13.


Polícia Federal como cereja do bolo do dia 13


Desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu a gestão do Pais, um mantra passou a ser repetido pela dita “grande imprensa” - o tal “aparelhamento do estado”. Logo, os seus seguidores passaram a repeti-lo, inclusive dentro da Polícia Federal, mesmo que nenhum cargo de confiança tenha sido entregue a qualquer petista ou simpatizante. O detalhe é que, quando é usado tal argumento para demonstrar a inconsistência dessa assertiva, leia-se, mantra, a resposta que se ouve é um lacônico “graças a Deus”.

O oportunismo classista de uma entidade de classe dos delegados federais, na manifestação de ontem, demonstra a clara falta de isenção. Reflete, no fundo, o sentimento de uma categoria, que de há muito já mostrou preferências eleitorais. Desse modo, a palavra isenção não vai além de uma simples retórica, dentro da Polícia Federal. Basta um simples olhar nas páginas de muitos delegados federais nas redes sociais.

Abro espaço para falar de um aparente perfil dominante da Polícia Federal.
Não preciso falar do perfil policial da época da ditadura, sobejamente conhecido ou presumido. Quero lembrar que nesse mesmo espaço, deixei documentado que em diversas oportunidades a PF não realizou concursos em São Paulo, porque até cobrador de ônibus tinha um salário melhor do que o de um agente ou escrivão. Assim, em que pese o grande número de vagas existente em São Paulo, os policiais vinham de outras regiões mais pobres.
Desse modo, o que atraiu o atual contingente da PF foram os salários, substancialmente melhorados, diga-se de passagem, na gestão do Partido dos Trabalhadores. A propósito, o salário de um policial da PF era uma ninharia e o restante eram gratificações e mais gratificações, criadas e extintas conforme a conveniência do gestor de plantão.
Por que falo disso? Porque bons salários atraem outro tipo de público. Leia-se, só os que estudaram em escolas particulares, universidades caras ou públicas, versado em uma ou mais línguas e outras habilidades é que passaram a ter acesso à PF. Disso se deduz que são pessoas egressas predominantemente da classe média, alta ou baixa, que compõem o novo perfil. A PF, predominantemente, é formada por classe media, aquela na qual predominam determinados valores elitizados. E, sequer pode-se falar tanto em vocação, já que, segundo a lenda dos “canas-duras”, a categoria agrega procuradores da República e juízes frustrados. A prevalecer o raciocínio dos “canas-duras”, ser delegado federal “foi o que deu pra hoje”, sempre ressalvando as exceções, conjecturas e elucubrações. Sob qualquer ângulo que se analise esse perfil, a conclusão óbvia é da predominância dentro da PF dos denominados valores “classe média”, aquela classe social sobre a qual ironicamente se diz que, “compra o que não precisa com o dinheiro que não tem, para se exibir para pessoas das quais não se gosta”. É, pois, de se imaginar, que respeitadas as exceções, que a influência desse ideário sobre qualquer operador do Direito pode arranhar a imparcialidade.
Desse modo, bom ficar claro que os ocupantes de cargos da PF, Ministério Público e Justiça Federal seguem a mesma linha e não vêm de outro planeta. São egressos da sociedade com suas contradições. Assumem funções públicas com a bagagem cultural socioeconômica de suas respectivas origens. No caso, ficam explicados os tratamentos reverenciais, tais como “excelência”, as mesas e cadeiras mais altas e os ternos olhares do “você sabe com quem está falando?”.
A imparcialidade é uma utopia humana. Presa na subjetividade, ela exige um permanente exercício para que não se exteriorize o inverso – a parcialidade. Não é o que temos visto. O juiz Sérgio Moro, por exemplo, apesar da atribulada agenda e do volumoso processo que se presume compor a Lava Jato, ele não mede esforços para aceitar convites para receber prêmios, fazer palestras, com invitáveis pronunciamentos de conotação política. Até sua genitora vem sendo homenageada por ter trazido ao mundo um novo Messias.
Com esse perfil classe média, visível na PF e noutras instituições, soa natural a identificação de tais servidores com políticos conservadores. Mas não para por aí. A PF também abriga um segmento de delegados mais radical ainda. Nesse outro grupo, constata-se uma verdadeira paranóia anticomunista e grandiloquências politiqueiras exteriorizadas por muitos em redes sociais. O exemplo mais visível estaria em um servidor que, segundo a lenda, almejava um cargo nos Estados Unidos. Como teria sido preterido, hoje, não poupa ofensas à Presidente Dilma Rousseff e aqui ali mostra os “avanços do comunismo no Brasil”.
Sem isenção aparente, se o tal aparelhamento da PF existe, ele está pelo avesso. O verdadeiro aparelhamento da instituição é outro, marcado pelo perfil não isento de muitas de suas autoridades.
Desse modo, a presença de delegados federais no protesto de ontem não parece ser novidade. Fatos que pareciam isolados, simples fogueiras de vaidade, como as duas investidas contra o ex-Presidente Lula, se afiguram compor um mesmo universo. Serviram, na prática, para reacender a indignação dos derrotados nas últimas eleições presidenciais. Tudo em sintonia com o insuflar da dita “grande mídia”. Não deu outra. O movimento de ontem ganhou expressão numérica, mas permanece vazio de conteúdo. Mas a PF não perdeu a condição de cereja desse bolo.
*Armando Rodrigues Coelho Neto - jornalista e advogado, delegado aposentado da Policia Federal, ex-representante da Interpol em São Paulo