sexta-feira, 27 de julho de 2007

As razões dos descontentes

Escrito por Mauro Santayana
Leia abaixo artigo publicado no Jornal do Brasil nesta sexta-feira (27): A velha direita, que sempre muda de nome, mas nunca de nomes, está articulando uma campanha de rua contra o presidente da República. Lula não é o melhor governante de nossa História, como alguns de seus áulicos proclamam. Não é o mais sábio, nem o mais virtuoso. Escorrega na gramática, e às vezes tropeça na lógica. Comete gafes diplomáticas e, segundo alguns, usa linguagem vulgar no convívio com os auxiliares imediatos. Muitos se incomodam com o timbre de sua voz. Escorregar na gramática e tropeçar na lógica não é exclusividade do ex-metalúrgico. Alguns presidentes norte-americanos se notabilizaram pelas gafes e pelos solecismos. Um dos best-sellers dos anos 70 foi o pequeno volume, que imitava o Livro Vermelho de Mao Tsé-tung, com a seleção de frases do presidente Lyndon Johnson. Algumas se destacaram, não só pela falta de sentido como pela gafe que carregavam. "Cada homem tem direito a um banho sábado à noite", era uma de suas máximas. Outra era a de que "ser presidente é como um burro debaixo de uma chuva de pedra. Não há nada a fazer senão permanecer ali e agüentar". Outra memorável: "Você já pensou que fazer um discurso sobre economia é como urinar pela perna abaixo? Você sente o calor, mas ninguém mais sente". Diante de tais exemplos, Lula não tem razões para o constrangimento. Há duas coisas que explicam a histeria de certos círculos da oposição. Uma delas - a principal - é o êxito da política econômica. Os especialistas podem explicá-lo como resultado da conjuntura internacional, e os tucanos atribuí-lo ao neoliberalismo do seu período de governo. Nada disso importa ao pequeno empresário, que aumentou sua receita, nem ao trabalhador, que toma sua cerveja e vai ao jogo de futebol, sem que faltem aos filhos o pão e o leite, nem à sua mulher o vestido domingueiro. Barriga llena, corazón contento, já diziam os pícaros espanhóis. Não só os trabalhadores empregados estão mais alegres. Satisfeitos também se encontram os grandes empresários nacionais, quando registram a entrada líquida e crescente de capitais externos, e se beneficiam da expansão do mercado mundial aos produtos brasileiros. Esse êxito incomoda e faz sofrer os arrogantes acadêmicos que demoliram o Estado nacional durante dois mandatos presidenciais. Outro motivo é o preconceito das oligarquias contra o trabalhador nordestino. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso expressou-o, sans ambages, em programa de televisão, ao debitar uma falha qualquer do presidente da República à sua situação social: pobre, quando chega lá, dá nisso. Bush pode cometer todas as gafes, porque é de família da Nova Inglaterra e fala inglês. Os tucanos, que não são lá essas coisas em matéria de cultura, sabem usar o garfo de peixe e escolher o vinho tinto para o assado. Por isso se presumem superiores a todos nós, que não nos doutoramos em Harvard, nem somos convidados para proferir aulas de verão na Sorbonne. Os conservadores lúcidos do antigo PFL - e cito, entre outros, o senador Marco Maciel - devem colocar seus radicais sob a canga da razão. O descontentamento de setores da classe média contra o governo não basta para mobilizar as famosas marchas da Família, com Deus e pela Liberdade de 1964, açuladas, naquele tempo, pelo padre Peyton, agitador subsidiado pelos norte-americanos. O Brasil é outro, o mundo é outro. Os provocadores que se acautelem, vistam-se de negro, de azul, ou de vermelho. E que se resignem a seu destino os ladrões de colarinho branco que, isso, sim, pela primeira vez em nossa História, começam a conhecer as algemas e o xadrez. Mauro Santayana é jornalista

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