terça-feira, 10 de julho de 2007

"Exageros, lá e cá",

"Exageros, lá e cá", por Tereza Cruvinel - O Globo.

Os interesses produzem ironias: Evo Morales, Chávez e Fidel Castro, velhos amigos do presidente Lula, foram os primeiros e mais duros críticos dos biocombustíveis. Mas ontem Lula respondeu às críticas que pipocaram na semana passada na Europa, durante a cúpula Brasil-UE em Lisboa, acusando o "cartel dos poderosos" de bloquear os caminhos do Brasil. Exagera o presidente, tanto quanto os críticos europeus dos "biocombustíveis sujos". Com o Brasil elevado à condição de parceiro estratégico da UE, e estando os biocombustíveis na agenda do encontro, intelectuais e ambientalistas europeus ensarilharam armas e discursos contra os muitos riscos que tais combustíveis trariam: à produção de alimentos (ecoando Chávez e Fidel), à Amazônia e aos direitos humanos, na medida em que fariam uso de trabalho escravo. Mas não chegam, por ora, essas críticas, a representar uma conspiração "do cartel dos poderosos tentando impedir que o Brasil se desenvolva", como disse Lula em seu programa de rádio de ontem. Não partiram, por ora, de governos ou de instituições multilaterais, mas de nichos da opinião européia. Em Lisboa, o festejado sociólogo Boaventura Sousa Santos disparou: - Toda monocultura gera pobreza. As pessoas não comem biocombustíveis! Comer, não comem, mas podem auferir renda através deles, e assim ter mais acesso à comida. O problema das condições de trabalho existe mas essa é a uma "sujeira" de mais fácil remoção que os danos ao planeta causados pela poluição, boa parte dela derivada do consumo de petróleo. Já os riscos à Amazônia e à produção de alimentos não passam de retórica, gerada a partir das críticas de Fidel e seu amigo Chávez, que sentado em cima das reservas de petróleo da Venezuela, não tem o menor interesse em energias alternativas. O ex-ministro Roberto Rodrigues, uma das maiores autoridades no assunto, assegura que, com aperfeiçoamento tecnológico, o Brasil poderá dobrar a produção de etanol em dez anos, sem avançar um metro sobre a área plantada com alimentos ou sobre a Amazônia. O Brasil hoje, diz ele, cultiva 62 milhões de hectares, dos quais apenas 6 milhões com cana-de-açúcar, e destes, só a metade se destina a etanol (que consome então menos de 5% da área agrícola brasileira). Sobram, afora as florestas, 220 milhões de hectares de pastagens, dos quais 90 milhões são aptos para a agricultura, dos quais 22 milhões se prestam ao plantio de cana. Logo, há muito para onde se expandir, colhendo comida e preservando a floresta. Evo, Chávez e Fidel fariam mais sucesso se falassem das condições de trabalho nas usinas de etanol. Casos de super-exploração e até de morte por exaustão já foram registrados, embora essa não seja a regra. Se Lula quiser tirar esta nódoa do programa e neutralizar as críticas, deve recomendar ao ministro Lupi a dura e imediata fiscalização das usinas. Erram os europeus quando juntam etanol e biocombustíveis no mesmo barril. A cana é plantada em latifúndios mas a mamona, o pinhão manso e outros grãos aptos a produzir biocombustíveis estão sendo comprados, em boa parte, dos pequenos produtores.

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