terça-feira, 24 de julho de 2007

Mídia com Medo

Escrito por
Eduardo Guimaraes
Na última segunda-feira, devido ao que vi nos jornais e na tevê sobre o desastre com o avião da TAM pude concluir que está aberta a campanha eleitoral de 2008. Novamente os grandes meios de comunicação se lançam a um ataque avassalador contra o presidente da República com a intenção de, atingindo o homem que simboliza o PT, desmoralizar os candidatos desse partido nas eleições municipais que se avizinham. Até aqui, o jornalismo de convencimento em prol do PSDB e do PFL vinha sendo apenas um "aquecimento" para o que foi desencadeado a partir do último dia 17. O "caos aéreo" vinha amainando. Com as perícias das caixas-pretas do Boeing da Gol e do jatinho Legacy e com a conseqüente conclusão da CPI do setor aéreo, que oposição e mídia exigiram, de que a culpa do acidente do ano passado era dos pilotos americanos, bem como com o enquadramento dos controladores de vôo revoltosos, a mídia já vinha perdendo a esperança de causar algum prejuízo mais consistente na imagem de Lula. Nesse contexto, a tragédia da semana passada trouxe alento à esperança oposicionista-midiática de colher algum dividendo político depois de quase um ano de inútil bombardeio do governo federal com cenas de aeroportos lotados e "bacanas" tendo xiliques. A campanha eleitoral de 2008 já está a todo vapor. Os jornais já nem se preocupam em dar espaço, por menor que seja, a quem acha que o acidente de Congonhas não tem relação com o "caos aéreo" ou que tal acidente não tenha ocorrido por culpa de Lula. Na coluna de cartas de leitores da Folha de São Paulo de hoje, por exemplo, só se vê ataques ao governo e ao presidente da República. O Jornal Nacional, na noite de ontem, apresentou uma verdadeira peça de teatro. O telejornal atuou durante quase toda sua duração no sentido de vender a teoria de que a pista principal de Congonhas em que o Airbus da TAM não conseguiu parar foi a culpada pelo desastre. E a exploração, pela Globo, das cenas de sofrimentos de parentes das vítimas e de declarações deles acusando o governo, constituiu um dos atos mais desprezíveis que pude ver na vida. Pior foi o programa Roda Viva, no fim da noite. O convidado foi o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Para entrevistá-lo, estavam lá os indefectíveis representantes da Folha, do Estadão, da Veja etc. O resultado não poderia ser diferente: o programa constituiu-se numa sessão de bajulação a Kassab por parte dos "jornalistas" designados para entrevistá-lo. O representante do Estadão chegou a levantar um debate sobre por que a população paulistana tem sido injusta com Kassab ao não avaliá-lo melhor nas pesquisas. E, claro, a TV Cultura e os representantes de Folhas, Vejas etc passaram o resto do tempo adiantando a bola sobre a culpa de Lula no desastre aéreo para Kassab chutá-la sem parar. E quando, finalmente, o programa abordou um tema incômodo para Kassab, da agressão dele a um popular no ano passado, mais do que um trabalho jornalístico questionando a explicação do prefeito, o que se viu foi o equacionamento do problema dele pelo Roda Viva. Em suma: o clima midiático do auge do mensalão está conseguindo se reimplantar porque oposição e mídia acham que com as cenas de sofrimento geradas pela tragédia de Congonhas conseguirão transformar Lula, seu governo e seus partidários em vilões sanguinários que "torturam" milhares de passageiros em aeroportos e chacinam centenas de outros permitindo que ocorram acidentes aéreos. O clima nas tevês, nas rádios, nos jornais, é de linchamento. Tenta-se, inclusive, intimidar quem queira dar declarações que conflitem com os "fatos" que a mídia está construindo sobre o governo federal, seu titular e seus partidários. Não há espaço nos grandes meios de comunicação para qualquer divergência. Uma notinha ou outra num jornal, mas tudo de forma bem controlada. A notinha tem que ser bem curtinha e declaratória. Nada de análises mais aprofundadas. Não se pode falar muito sobre o acidente com o avião da Gol no ano passado. Só permitem insinuações sobre aquele acidente. Se se falar muito, terá que se falar sobre todos os laudos que mostram a culpa dos pilotos americanos. Então só se permite tocar no tema para vinculá-lo ao desastre novo. É muito difícil que esse novo ataque não funcione nada. Nas classes A e B, o prejuízo político para Lula e o PT será avassalador. Aliás, pesquisa Vox Populi que acaba de ser publicada pela Carta Capital já demonstra uma forte venezuelização da opinião pública. As classes C, D e E vêm se afastando das classes A e B na avaliação de Lula e de seu governo. Em resumo: os pobres vão se aglutinando cada vez mais em torno do governo, e os ricos e remediados vão para o lado da oposição. O "caos aéreo" está contribuindo para dividir ainda mais o país. Quando gente que vive na pele o descalabro dos hospitais públicos, por exemplo, vê que nunca a mídia se preocupou em pressionar as autoridades para melhorá-los nem um décimo do que tem feito para preservar o conforto de quem pode pagar por uma passagem aérea, daí fica claro para os mais humildes como a mídia os discrimina. Deve ser por isso que a pesquisa Vox Populi revelou que essa mesma mídia, nas classes C, D e E, tem bem menos credibilidade do que o governo. É a materialização do conflito de classes venezuelano. E os ataques da mídia aos eleitores de Lula que têm menos dinheiro e instrução formal vão dividindo ainda mais o país. Digo dividindo por força de expressão, claro, porque este país tem muito mais pobres e miseráveis do que ricos e remediados. O governo Lula parece ter abandonado a guerra pela opinião do estrato social que eu e você, leitor, integramos, que é o estrato que dá bola para o que diz a mídia sobre política. Na verdade, é uma batalha impossível de ser travada. Como se vai lutar com uma Globo se ela tem lado na disputa, controla as regras do jogo e as armas que serão dadas a cada oponente? Então, melhor priorizar o atendimento ao eleitorado que vê razões para bem avaliar esse governo e esperar a decisão das urnas. Estaria tudo muito bom, tudo muito bem se não fosse o fato de que o efeito pretendido pela mídia, em eleições municipais será bem mais fácil de ser alcançado devido à dispersão dos votos. A gritaria da mídia está muito alta e uníssona. Como no auge do mensalão. Gritar junto não será eficaz. Só com inteligência será possível vencer. Isso já foi feito antes, derrotar a mídia. Só é preciso saber como adaptar a reação anterior ao novo ataque dela. Mas acho que ela grita muito alto e tão cedo porque tem medo de ser derrotada de novo. Esse medo é o fio da meada para derrotarmos de novo os meios de comunicação e a oposição tucano-pefelê.

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