quinta-feira, 19 de julho de 2007

O liquidificador mental da mídia

Quarta-feira, 18 de julho de 2007, passando um pouco das oito da noite. Chego ao quarto de hotel e já vou ligando a tevê na Globo internacional. É só o que tenho aqui em Lima para me trazer as novas da pátria. Sorte malvada... É o Jornal Nacional. Willian Bonner está falando do desastre. Aumento o som e ele some instantaneamente, dando lugar a reportagem sobre os dramas das famílias das vítimas quando ainda esperavam notícias de seus entes queridos no aeroporto de Porto Alegre. A tensão vai aumentando junto com a revolta das famílias sem informações. O espectador também vai ficando revoltado. É desumano deixar aquela gente naquela aflição. A reportagem valoriza a espera. Demora um pouco antes de mostrar a reação das pessoas ao saberem das mortes. Depois, por minutos intermináveis, a explicação minuciosa do drama de cada um. É a mulher que perdeu a mãe e as filhas adolescentes, a mãe que perdeu os filhos adolescentes, o marido que perdeu a esposa... E as fotos das crianças. À essa altura, o espectador está receptivo a linchar o primeiro culpado que lhe for apontado. Então uma pausa. O liquidificador mental da Globo é desligado temporariamente. De forma protocolar, é dada informação de especialistas que avisam que ainda não é possível tirar conclusões. O liquidificador é ligado novamente. Primeiro, mesmo sem saber a causa do acidente, a Globo o vincula ao “caos aéreo”. Fala dos atrasos nos aeroportos e do desastre com o avião da Gol no fim do ano passado. Não informa o telespectador que, segundo todas as investigações, inclusive as da CPI que a mídia e a oposição exigiram, os culpados por aquele desastre foram os americanos que pilotavam o jatinho que atingiu o Boeing da Gol. O liquidificador continua batendo. Agora, declarações de autoridades sobre os atrasos nos aeroportos são adicionadas. A mistura torna-se mais espessa. Acrescenta-se imagens de Lula e afirmação dele de que queria dia e hora para solucionar o problema nos aeroportos. Então, a pièce de résistance a ser adicionada à mistura: parlamentares da oposição fazem a acusação formal de que a culpa pelo desastre é do governo Lula. Quem assistiu tudo aquilo e não tiver um mínimo de preparo intelectual certamente ficará com a certeza de que os acidentes com o avião da Gol e, agora, com o da TAM foram culpa de Lula. Pouco importa que o primeiro desastre já se saiba que nada tem que ver com os atrasos nos aeroportos e que não exista o menor subsídio para se afirmar que o desastre de ontem tenha relação com esses atrasos. A tragédia de Congonhas, nas mentes liquidificadas de boa parte dos telespectadores do Jornal Nacional, já tem um culpado: Lula. Ou não? Ou será que também desta vez o liquidificador mental da Globo produzirá uma quantidade insuficiente de gosma intelectual?
Escrito por Eduardo Guimarães

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