quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Ironia do destino: Pai e filho podem perder mandato.

Livro revela: Cícero mandou tropa de elite resgatar Ronaldo da PF
Cícero - Atual senador PSDB-PB
Ronaldo - É pai de Cássio, o Governador (cassado pelo TRE, mantido no cargo por liminar do TSE). É Deputado Federal pelo PSDB.
No seu livro "Do Gulliver ao Campestre", que deverá ser lançado ainda este ano, o jornalista Nelson Coelho revela que Cícero Lucena, vice-governador do Estado em novembro de 1993, deu ordens expressas à Polícia Militar para resgatar Ronaldo Cunha Lima das mãos de policiais federais que detiveram o então governador após o atentado contra a vida do ex-governador Tarcísio Burity.
Depois de atirar em Burity dentro do famoso restaurante da Capital, Ronaldo fugiu para Campina Grande, onde foi detido pela Polícia Federal. Uma versão sobre esse momento da história diz que o governador seria transferido para João Pessoa. Quando soube dessa possibilidade, Cícero teria convocado o comandante geral da PM, o secretário de Segurança Pública e aos dois ordenou organizar uma tropa de elite para libertar Ronaldo da PF de qualquer jeito.
A operação de resgate dar-se-ia em um trecho da BR-230 próximo da cidade de Cajá ou do posto da Polícia Rodoviária Federal em Café do Vento. Apesar da imprevisibilidade e risco envolvidos numa ação do gênero, supõe-se que a idéia de Cícero era fazer tudo sem derramamento de sangue, considerando que o contingente mobilizado para tanto deveria bem numeroso e suficiente para fazer a escolta da PF render-se sem oferecer resistência. Os detalhes da operação abortada pelo bom senso, presume-se, estão no livro de Nelson Coelho, que conta lances inéditos dos antecedentes e reações ao episódio do Gulliver bem como da famosa e histórica festa do Clube Campestre, de Campina Grande, que também resultou num incidente protagonizado por Ronaldo Cunha Lima e selou o rompimento entre ele e o então governador José Maranhão (PMDB).
O impacto do atentado

O que mais impactou a opinião pública quando aconteceu o atentado no Gulliver foi o fato de o crime ter sido praticado por um governador de Estado e muito mais por ser o então governante uma pessoa que todos tinham como o homem mais pacífico do mundo. Poeta, orador magnetizante, brincalhão, dono de verve criativa e cativante, além de um repertório de piadas e causos que animavam qualquer roda, no plano pessoal Ronaldo Cunha Lima se relacionava bem com todos que encontrava pela frente, inclusive adversários políticos. Esse perfil explica em boa parte porque até hoje nem ele consegue explicar convincentemente porque fez aquilo no dia 5 de novembro de 1993, data em que sacou uma arma dentro do restaurante Gulliver, em João Pessoa, e deu três tiros no ex-governador Tarcísio Burity, que se encontrava lá aguardando o almoço, batendo papo, descontraído e desprevenido, com dois amigos.
Burity estava sentado de costas para o atirador, para quem teria voltado o rosto quando ouviu algo como "É você quem eu quero" e viu uma súbita agitação em várias mesas ao redor daquela em que se encontrava, na companhia do ex-deputado Manoel Gaudêncio e do empresário Marconi Góes, então diretor executivo dos Diários Associados na Paraíba.
Omissão de socorro
Naquela fração de segundos que antecedeu os tiros, Burity teria identificado a voz do agresssor e depois, ainda sob o impacto do balaço que recebeu, teve a certeza de que o atirador era ninguém menos que Ronaldo Cunha Lima, sucessor da vítima no Governo do Estado. Dos dois ou três tiros disparados, apenas um acertou o alvo com gravidade, perfurando-lhe o rosto, rasgando-lhe a boca, indo se alojar no ombro esquerdo.
Um terceiro disparo só não atingiu Burity - e poderia ter sido o tiro de misericórdia - porque Manoel Gaudêncio atracou-se com Ronaldo e tomou-lhe a arma, levando-o em seguida para o banheiro do restaurante. No chão, sangrando muito, o ex-governador pedia socorro em vão a algumas pessoas que estavam ao redor, entre elas Cícero Lucena, que tratou de ajudar o governador a fugir do local do crime.
Presente também estava o então deputado e líder do governo Gilvan Freire, que igualmente teria se negado a prestar socorro ao ex-governador. Marconi Góes, na época também um dos maiores desafetos dos Cunha Lima, saiu correndo do local logo depois dos tiros, certo de que, depois de dar cabo de Burity, ele seria o próximo. Restou ao ex-governador ir sozinho ou com ajuda de um desconhecido ao Hospital Samaritano, onde foi medicado e cirurgiado.
Supostos motivos

Ronaldo teria resolvido eliminar Burity depois de saber de uma entrevista que o ex-governador concedera a TV O Norte, de João Pessoa, dois dias antes do atentado no Gulliver. Nessa entrevista, Burity teria feito críticas severas à gestão na Superintendência da Sudene de Cássio Cunha Lima, filho de Ronaldo. Ronaldo teria formado seu juizo a respeito da entrevista de Burity a partir de informações que lhe foram repassadas por fonte da sua mais absoluta credibilidade. O tal informante teria "envenenado" o governador de tal forma que ele se decidiu pela forma extremada de "lavar a honra ultrajada" do filho.
Entre as supostas deturpações levadas a Ronaldo acerca do que Burity disse à TV O Norte estaria o endosso do ex-governador a acusações que o Padre Júlio Paiva, inimigo declarado dos Cunha Lima em Campina Grande, teria feito ao então superintendente da Sudene. Júlio Paiva, líder de uma igreja dissidente da Católica, acusava Cássio por desvios de recursos no Finor, o Fundo de Investimentos do Nordeste operado pela autarquia de fomento do desenvolvimento regional.
Versões de bastidores atribuem ao atual deputado Ricardo Barbosa (PSDB) a identidade de fonte da qual Ronaldo bebeu o veneno que lhe injetou ódio contra Burity. Membro do círculo íntimo do poder naquela época e assessor mais próximo de Ronaldo, Ricardo nega até hoje, com a maior veemência, que tenha contribuído de alguma maneira para o governador agir com violência contra seu antecessor.
Rubens Nóbrega
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