segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Outro ataque contra-informativo

(Cangaceiro, de Candido Portinari)
Há tempos que o Globo comprou guerra contra o PMDB. Nos últimos meses, com a entrada do PMDB na coalizão governista, a guerra global aprofundou-se. Minha diversão é encontrar contradições nos ataques midiáticos à maior sigla nacional. Por exemplo, repararam que o Globo, e a mídia de forma geral (falo do Globo porque é o único que compro e leio diariamente, esperando receber meu justo salário de ombudsman um dia), louvaram como decisões oraculares o julgamento sofre fidelidade partidária?
Repararam quem é o ministro do STF mais fanaticamente alinhado às posições midiáticas? Marco Aurélio de Mello. O mesmo que manda soltar todos os ladrões de colarinho branco. Mas isso não vem ao caso.
O que eu queria comentar é que o PMDB tirou a vaga do Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos da CCJ, Comissão de Constituição e Justiça, alegando que eles vinham votando sistematicamente contra o partido.
Eu me pergunto o seguinte: ora, se o Globo aprovou de maneira tão canina a decisão do STF, inspirada no princípio de que os mandatos pertencem aos partidos, porque ataca a decisão do PMDB, legítima, legal, soberana, de afastar Simon e Vasconcelos, dois parlamentares que vem jogando muito mais ao lado da oposição do que do PMDB? Os mandatos não pertencem aos partidos?Respondo: porque a mídia é hipócrita e interesseira. A decisão do STF só foi tão ardentemente comemorada (e defendida através da agora conhecida tática da "faca-no-pescoço") porque poderia prejudicar o governo Lula, estacando o processo de rápido declínio e perda de parlamentares dos partidos oposicionistas. Repare que os melhores ministros (na minha humilde opinião) do STF votaram contra a fidelidade partidária, alegando que os deputados são representantes do povo e não de partidos.
A decisão do STF pode ter sua lógica, mas a meu ver foi autoritária, invasiva e, sobretudo, desestabilizadora, ao mudar as regras no meio do caminho. Os parlamentares que mudaram de partido o fizeram dentro da lei. E agora serão constrangidos a defenderem-se como infratores. Esse tipo de coisa cria instabilidade política, como já criou, atrapalha votações importantes no Congresso e, portanto, prejudica a economia brasileira.
*Outra manipulação grosseira do Globo foi quanto à frase da ministra Dilma Roussef, que declarou, em sabatina à Folha de São Paulo, que nomeação técnica é "ingenuidade tupiniquim". Eu assisti à sabatina pela TV UOL. O que a ministra disse não foi nada disso. O Globo descontextualizou completamente a frase e hoje volta a carga descontextualizando ainda mais, num desses pequenos boxs de opinião que, nos últimos tempos, vem se proliferando por todas as páginas do jornal. A ministra explicou que, em diversas nomeações, os partidos brigam pela indicação de técnicos de carreira das estatais. O mais importante de sua explanação, contudo, foi de que os dirigentes das estatais precisam ser pessoas de conhecimentos universalistas e comprometidas com o crescimento do país, não técnicos especializados. Ela cita os conceitos de governança corporativa e planejamento estratégico. Cita o que ocorre em outros países. A ministra, aliás, deu um verdadeiro show de inteligência e cultura política nos repórteres que procuravam, a todo momento, criar-lhe embaraços. A Cantanhede, num ato quase desesperado (e covarde), abordou o assunto da tortura, tentando desestabilizar a ministra emocionalmente, pois se sabe que ela foi torturada e presa por 3 anos no Dops de São Paulo, com apenas 19 anos de idade.
*Merval Pereira continua manipulando grosseiramente alguns dados. Citando estudo de pesquisadora, diz que a prova do aparelhamento político do Estado está no fato de 20% dos cargos do alto funcionalismo federal serem ocupados por petistas. Não cita, porém, quantos estão ali por concurso e por mérito próprio, que são a maioria absoluta. Ele acusa ainda o fato de que grande parte desses funcionários serem também sindicalistas. Aí é um absurdo surreal. Merval Pereira agora quer criminalizar o sindicalismo brasileiro. Depois de criminalizarem os movimentos sociais, de criminalizarem os partidos de esquerda, agora querem criminalizar os sindicatos e seus dirigentes. Sem contar que o estudo é manipulado politicamente, porque não diz quantos foram indicados pelo governo atual, quantos estavam ali desde antes, além do preconceito elitista de que um governo eleito com 54 milhões de votos não teria o direito legítimo, democrático (e até o dever, eu diria) de mudar a máquina pública, adaptando-a à opção popular ao partido vencedor. Quando os tucanos ocupam o poder, eles simplesmente ocupam o poder, quando é a vez do PT, é aparelhar? Não tem lógica.
*A imprensa vem distorcendo de maneira idiota o debate sobre a carga tributária brasileira. Está denunciando como negativo o aumento da arrecadação fiscal, confundindo os leitores, porque não informa o quanto este aumento advém do crescimento econômico, quanto advém da melhoria da fiscalização e o quanto advém do faturamento maior das próprias estatais, três fatores que explicam boa parte deste aumento e que não impactam no bolso do pobre, nem da classe média, muito menos da classe alta, constituída pelos donos e altos executivos das empresas em crescimento. O Merval Pereira colabora com a farsa, ao dizer que a carga tributária brasileira é a maior do mundo. Mentira grosseira. É maior sim que a de outros países latino-americanos, como El Salvador e Bolívia, que, a meu ver, não são modelo econômico e social para ninguém. Em comparação com as economias desenvolvidas, a carga tributária brasileira é infinitamente menor. Os ricos desses países pagam verdadeiros nababos aos governos, muito diferente do que acontece com aqui.
Outro ponto contraditório é o seguinte. O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o governo vai regulamentar as tarifas bancárias. Aí ficamos sabendo o que já sabíamos, que os bancos usam subterfúgios para cobrar taxas dos clientes. Ficamos também sabendo (o que também sabíamos, mas os jornais não dão a devida importância) que o spread brasileiro, esse sim, é o maior do mundo. Todas essas taxas geraram um custo, ao bolso do consumidor, sobretudo da classe média, de dezenas de bilhões de reais. Mais que a CPMF, talvez, e sem ir um tostão para Saúde ou para a estabilidade econômica. Apenas para o bolso dos banqueiros. Por que a oposição não fala disso? Por que os colunistas não escrevem sobre isso? Por que ninguém fala do spread alto no Brasil? Por essas e outras que os partidos da direita vem perdendo eleições e parlamentares e não é com liminares judiciais que vão recuperar terreno. A direita brasileira bochecha um capitalismo imbecil, depressivo e bananeiro, que não enxerga a importância da criação de um grande mercado de massa, como está sendo feito pelo governo Lula, não reclama dos spreads bancários e faz coro ao chororô midiático contra o aumento da arrecadação fiscal, fato a ser comemorado em qualquer país quando é resultado de crescimento econômico e não do aumento da carga tributária, pois possibilita investimentos estatais em infra-estrutura, políticas sociais e educação.

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