segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Transposição do São Francisco. Sem boa causa não há mártir

Artigo do Ministro Geddel Vieira Lima: Sem boa causa não há mártir 
Ministério da Integração Nacional - Rio São Francisco



Sem boa causa não há mártir

Greve de fome como método de pressão política só fez sentido na História em lutas libertárias contra injustiças extremas. Foi assim que as mulheres inglesas conquistaram direito ao voto, que Mahatma Gandhi encerrou a longa opressão do colonialismo britânico na Índia e que, muitas vezes, presos políticos ou comuns conseguem denunciar regimes de maus tratos e torturas. Na forma, a greve de fome do Bispo de Barra, Dom Luís Flávio Cappio, se aproxima da estética dos mártires. No conteúdo, não. Dom Cappio diz protestar contra a transposição e a favor da revitalização do rio São Francisco, o que justificaria seu gesto radical. Mas é um erro banalizar esse instrumento sagrado de luta porque, antes de mais nada, ele exige uma causa nobre ou uma iniqüidade de enormes proporções. E isso é tudo o que não é o projeto do governo para o São Francisco. Dom Cappio faz do marketing do martírio seu único argumento, numa alegoria da sua incomunicabilidade com o governo. Produz com isso talvez uma imagem forte, mas um debate certamente fraco. Um fato precisa ser colocado com toda a moderação, mas com toda honestidade intelectual: atitudes assim embutem o vício de pensar que uma democracia pode se dobrar a uma vontade individual. Mas, em democracia, desrespeitar os ritos e os processos é pecado capital. Se esse gesto traz algum benefício, pode ser o de lançar luz sobre dois temas vitais para o Brasil: a convivência com a seca e o cuidado ambiental com o São Francisco. São questões que demandam mais apetite para o diálogo do que jejum. O Bispo de Barra diz estar convencido de que a transposição vai prejudicar o rio São Francisco. As razões técnicas, todavia, derrubam esse discurso. O Projeto de Interligação retira do rio 26 metros cúbicos de água por segundo depois da barragem de Sobradinho. Ou seja, apenas 1,4% da vazão que vai ser perder no mar. É uma fração de água tão pequena que os aparelhos medidores mais modernos são incapazes de detectar. Dom Cappio também alega que existem alternativas mais baratas do que a transposição - como açudes, cisternas, poços. E cita como suposto fundamento para esta tese o Atlas do Nordeste produzido pela ANA (Agência Nacional de Águas) com a participação do Ministério da Integração. Por estas considerações, a greve de fome novamente perde sentido. Quem lê o Atlas do Nordeste vê que não se trata de uma alternativa à transposição, mas de um complemento, que recomenda construir adutoras para cidades com mais de cinco mil habitantes. Enquanto a água do São Francisco será aduzida para as cidades, em sintonia com o Atlas, outras medidas deste documento também serão aplicadas para abastecer populações rurais difusas. Não é difícil entender quanto ineficaz e perdulário seria construir novos açudes onde os existentes estão secando e até salinizando. É o caso de Cabaceiras, onde o açude Epitácio Pessoa precisa da torneira da transposição durante a seca. Nesta cidade da Paraíba, as pessoas consomem metade do volume de água que a ONU considera mínimo para a sobrevivência e não há de onde tirar mais água. Armazenar a chuva, quando ela vem, seria insuficiente. Instalar mais açudes, sujeitos a secar, seria imprudência. Já a idéia de que a obra vai beneficiar os ricos é uma acusação injusta do religioso. A água da Interligação vai atender as cidades do semi-árido, onde os indicadores de pobreza são notórios. Os fatos não deixam dúvidas de que a tentativa de Dom Cappio de atentar contra a própria vida choca com a necessidade de sobrevivência de 12 milhões de pernambucanos, paraibanos, potiguás e cearenses. O rio São Francisco concentra 80% de toda a água existente no semi-árido. É preciso distribuí-la para onde as pessoas estão passando fome e sede. A transposição é uma obra emancipacionista e de combate à "indústria-da-seca", porque reduz o assistencialismo e garante mais oportunidades de bem-estar e crescimento aos mais pobres. Vendo o gesto de Dom Cappio por uma perspectiva histórica, sua greve é como uma dádiva para os coronéis dos grotões que ainda sonham em se aferrar ao atraso. O bispo acrescenta que a greve de fome é pela revitalização. Mais uma disparate. As ações de revitalização já são realidade. Lá mesmo na sua diocese, em Barra, a mata ciliar está sendo replantada nos pontos degradados das margens. Barra é a sede do campo de provas, onde os melhores engenheiros do país usam biotecnologia para fazer contenção de barrancas. Além disso, Barra e outros 170 municípios da bacia do São Francisco estão sendo beneficiados com saneamento básico e ambiental, obra de despoluição das água pelo tratamento dos dejetos urbanos que hoje são jogados diretamente no rio. Se todas essas razões não convencem Dom Cappio de que é melhor viver por um São Francisco melhor do que morrer para deixá-lo como está, só nos resta fazer o que já estamos fazendo: disponibilizarmos ambulância para assegurar todo o cuidado médico que seu ato fundamentalista cada vez mais vai exigir. No mais, eu, que sou cristão, tenho rezado diariamente para que Deus lhe devolva o equilíbrio e a lucidez. Os problemas do semi-árido pedem urgência. O entendimento, a solidariedade, o dever de justiça são as ferramentas que ajudarão o governo a levar água necessária a uma existência digna no semi-árido. Em sua passagem pelo Brasil, o Santo Padre nos deixou uma mensagem de grande sabedoria, muito útil nestas horas. Disse o Papa Bento XVI, em um de seus pronunciamentos: "Se a Igreja começasse a se transformar diretamente em sujeito político, não faria mais pelos pobres e pela justiça, mas, pelo contrário, faria menos, porque perderia sua independência e sua autoridade moral, se identificando com uma única via política e com posições parciais questionáveis". Do ponto de vista moral, o projeto de transposição e revitalização do São Francisco é um avanço contra o coronelismo retrógrado. Do ponto de vista técnico, possui sólidos argumentos. Do ponto de vista democrático, não pode ser atropelado por uma imagem, por mais comovente que ela seja. Sinceramente, torço para que estas palavras possam tocar o coração de Dom Cappio. Geddel Vieira Lima - Ministro da Integração Nacional

Nenhum comentário: