sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Matilde Ribeiro justifica despesas com cartão e deixa o governo


A ministra da Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, entregou o cargo nesta sexta-feira (1). Mais cedo, ela já havia anunciado esta decisão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma reunião. Abalada com as acusações feitas pela imprensa sobre o suposto uso indevido do cartão corporativo, a ministra convocou uma entrevista coletiva para justificar as despesas feitas e dizer que estava se demitindo do governo.
Matilde Ribeiro leu trecho da carta de demissão enviada ao presidente Lula. Disse que sempre teve a vida pessoal ''pautada pela honestidade e responsabilidade''. E que a conversa com o presidente Lula foi ''madura''. ''Reconheci o erro e fui com o propósito de pedir o meu desligamento'', afirmou. A ministra não soube dizer quem a substituirá no cargo. ''Está nas mãos do presidente Lula'', afirmou. Ela reconheceu que usou indevidamente o cartão, mas justificou o uso irregular. Matilde Ribeiro disse que a secretaria não tem infra-estrutura fora da sede, em Brasília. E que ela havia sido orientada a usar o cartão para despesas com hospedagem alimentação e locação de veículos. ''Assumo o erro administrativo no uso do cartão. Os fatos partiram da dificuldade com deslocamento e hospedagem fora de Brasília'', disse ela. ''Foi um erro administrativo que pode e deve ser corrigido.'' Segundo ela, foi mal orientada por dois funcionários da secretaria. ''Não estou arrependida. Fui orientada a usar o cartão'', disse Matilde, afimando depois que esses funcionários já foram demitidos. A permanência de Matilde no governo passou a ser questionada após a revista "Veja" ter feito uma matéria muito maliciosa, sugerindo que a ministra promovia ''gastança pessoal'' com o cartão. O potencial de constrangimento da denúncia logo foi percebido por outros veículos de comunicação dedicados a golpear o governo Lula e uma série de matérias deram continuidade às denúncias nos últimos dias. Despesas justificadas De concreto, a única despesa constatada como realmente irregular no cartão da ministra Matilde Ribeiro foi uma compra de R$ 471 num free-shop. A ministra informou que usou o cartão por engano e devolveu o dinheiro aos cofres públicos. O restante dos gastos, cerca de R$ 171 mil reais, foram feitos para cobrir despesas que a ministra tinha para cumprir a agenda de atividades da secretaria fora de Brasília. A assessoria da ministra informa que, no ano passado, houve necessidade de intensificar a relação com os novos governos estaduais e rediscutir políticas de promoção da igualdade racial. Por isso, viajou mais. Também diz que suas despesas de viagem são integralmente feitas no cartão e, por não ter estrutura nos Estados, como escritórios, carros oficiais e motoristas, gastos com deslocamentos se elevam. Um levantamento honesto sobre as despesas da secretaria, mostra que Matilde não promoveu uma ''farra'' com o cartão como a imprensa anti-Lula tentou mostrar. Mas como o governo Lula é sensível demais às pressões da mídia, o desgaste aumentou e nesta sexta-feira Matilde se viu obrigada a colocar o cargo à disposição, abrindo precedente para que novas acusações do mesmo tipo atinjam outros integrantes do governo. Biografia Matilde Ribeiro, que está na equipe do presidente Lula desde 2003 quando a pasta da Igualdade Racial foi criada, nasceu em Flórida Paulista (SP) em 1960 e é assistente social com mestrado em Psicologia Social na PUC-SP. O texto de sua biografia disponível no site da Presidência da República informa que ela foi ''operária, recepcionista, auxiliar administrativa e assistente social''. Militou em movimentos de mulheres e de negros e no PT. Trabalhou em ONGs e nas prefeituras de Osasco, São Paulo e Santo André, além do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e no Centro de Estudos sobre Trabalho e Desigualdades.

Caso Benedita.

Não é a primeira vez que a pressão da mídia afasta do governo uma ministra negra. A ex-ministra da Ação e Promoção Social, Benedita da Silva, também teve que deixar o cargo após ser vítima de uma série de matérias divulgadas na imprensa que a acusavam de usar dinheiro público em uma viagem particular à Argentina. Segundo Benedita, ela teve compromissos profissionais na viagem. Mas as explicações não bastaram para a imprensa e a pressão sobre a ministra continuou, até que em janeiro de 2004 ela se viu obrigada a colocar o cargo à disposição.
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