sexta-feira, 18 de abril de 2008

Caso Isabella

Virou uma discussão nacional, onde é impossível não se envolver emocionalmente. Onipresente nos meios de comunicação há mais de duas semanas. Não há como tomar conhecimento e não se perguntar: Por quê? Quem?... Fui substituindo as perguntas, e entre as novas passou a surgir... “Por que o caso Isabella comove tanto o país?
 

Por Toni C.



Isabella: emoção, coisas e gente Comecei a notar que, por mais que se provoque na sociedade os sentimentos mais individualistas, o  ser humano tem guardado dentro de si sentimentos de solidariedade e companheirismo. Quem não se colocou no lugar da menina? Quem não se colocou nos lugar dos pais, dos irmãos, da mãe?


Quem não se sentiu pelo menos por uma fração de segundo como se Isabella Oliveira Nardoni fosse a sua própria filha? Como se perdesse um ente querido...


Talvez tenha sido isso que Cristo ensinou quando disse “amai o próximo como a ti mesmo”. Ou o que Che expressou na celebre frase: “Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros”.


Isabella, com cinco anos de idade, unificou uma nação de 180 milhões de pessoas num único sentimento. A comoção nacional é justa, legítima e reveladora.


Outra pergunta que fiz foi: Será que o mesmo aconteceria caso Alexandre Nardoni fosse um pedreiro desempregado, morasse numa favela e não no 6º andar do Edifício London? E se a queda da menina fosse numa valeta do esgoto a céu aberto que passasse em frente do barraco da família?


Cento e onze mortos no massacre do Carandirú a mando do governo paulista, não causaram tamanha comoção. E o país que tem cidades como o Rio de Janeiro, onde morrem mais jovens vítimas de armas de fogo do que em guerras como a de Israel e Palestina (pesquisa do Iser 2001). 


A comoção é louvável. Mas por que não houve a mesma reação diante da Chacina da Candelária, quando policiais atiraram em mais de 70 menores? Por que crianças mortas de inanição comovem menos que adolescentes morrendo de anorexia? Por que quem rouba um pote de margarina vai preso e quem toca fogo em índio e mendigo fica impune?


Uma das testemunhas, um advogado morador do prédio em frente, apareceu na televisão dizendo: “A menina não representava perigo a ninguém”. Então é por isso? Quando morre um pretinho desafortunado ninguém se comove porque ele pode representar perigo quando crescer? E o mal se corta pela raiz?!


Tudo demonstra que, por trás da nobre comoção, está embutido um mesquinho sentimento de classe. 


Os casos do menino João Hélio, arrastado preso ao cinto do carro, ou da estudante Liana Friedenbach, morta pelo namorado, foram usados como estandarte para reivindicar a redução da maioridade penal, ou pedir a pena de morte. No caso Isabella, as classes menos favorecidas não saem às ruas para pedir o fim da cela especial para quem tem curso superior, ou a extinção do foro privilegiado. Afinal a lei não deve ser aplicada da mesma maneira a todas as pessoas?


Vivemos num país onde o pobre foi ensinado a se classificar como classe média baixa. Parece que essa classe média se diferencia da outra por não ter o hábito de tirar proveito da desgraça alheia.


A imprensa, que mede sua audiência com pesquisas, não cansa de bombardear o caso, mesmo sem nenhuma nova informação. Se precipitou em acusar o pai e repete versões que já se sabe serem inverdades.


A polícia informa que até sexta-feira deve sair o laudo conclusivo. O telejornal da maior emissora deTV do Brasil, ne quarta pela manhã, deixou escapar que torce para que o caso se estenda ao máximo – assim como sua liderança de audiência, hoje ameaçada.  Apela para o argumento macabro de que sexta feira Isabella completaria seis anos. “Não seria de bom tom no dia de seu aniversário divulgar o laudo final (sic)", comenta a apresentador. Impedida de exprimir emoções, ela diz uma única frase, “Que caso triste!”, e emenda com a próxima notícia, sobre uma festa de premiação do cinema. Entram imagens de gente sorrindo; entre os grandes campeões da noite  está o filme Tropa de Elite, é claro.


Discordo em gênero, número e grau de quem simploriamente classifica esse filme de fascista. Fascista é a sociedade em que vivemos. O filme é só um retrato dela. 
O ator Wagner Moura, que interpreta o personagem Capitão Nascimento no filme, dá uma breve declaração, dizendo-se satisfeito por ser reconhecido não só pelo povo mas também por profissionais da área. 


Será que com tanto artista, imprensa, enfim, com toda elite, ninguém cotucou o Wagner e cochichou em seu ouvido: “Wagner, entra numa cabine telefônica, vira o Capitão Nascimento, pega sua Tropa e sobe pelo elevador. Atira no primeiro que aparecer, pega uma segunda pessoa pelos cabelos e coloca a cara dele no buraco do tiro. Depois bate na cara dele gritando. ‘Confessa, quem matou Isabella, você viu, confessa!’ Até o cara contar”?


Quantos filhos não perguntarão nos próximos dias: “Papai, você tem coragem de me jogar do prédio?” Quantos não se perguntaram o que aquela criança fez para merecer isso? Quantas mães com filhos de outro casamento não proibirão que seus filhos passem um fim de semana com seu ex-marido? Será que alguém mais lucrou com isso além da imprensa e das empresas que vendem grades para janela?


Não sei. Só sei que eu também não sou as coisas. Eu me revolto.

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