sexta-feira, 2 de maio de 2008

EXPORTADORES CHORÕES



Por 
Eduardo Guimaraes

“Está surgindo uma visão negativista sobre a nota grau de investimento recém-concedida à economia brasileira que está ganhando expressão. Essa visão, no entanto, não é produto da luta política entre governo e oposição. Ela decorre de interesses contrariados. 

A teoria ganhou corpo no blog do Luis Nassif. Impressiona ver um jornalista sério e que está entre os que mais entendem de economia no país dizer, com todas as letras, que a melhora na classificação de risco constitui uma ameaça que certamente nos colocará em crise econômica. 

A teoria, trocando em miúdos, é a seguinte: com o grau de investimento, os títulos brasileiros tornam-se ainda mais atrativos e rentáveis por conta de juros internos incompatíveis com uma economia segura. Vem, então, uma enxurrada de dólares para a ciranda financeira e para investimentos de médio e longo prazos, de maneira que o preço da moeda americana desaba de vez junto com as exportações e termina por gerar uma grave crise cambial.

Nassif não faz a previsão nem no condicional. Dá até prazo para a desgraça ocorrer: fim de 2010 ou começo de 2011. 

Na canoa dele embarcam leitores antipetistas esquizofrênicos que querem ver o país no buraco para verem suas teorias sobre o "mau" governo Lula se concretizarem. Falam como se tivéssemos sido atingidos por uma bomba. Estão todos errados: governo, investidores, agências de classificação de risco... 

A teoria chega ao ponto de dizer que o grau de investimento faria parte de um plano de especuladores para darem uma bela mordida na economia brasileira e se escafederem. 

Não questiono os motivos do Nassif. Ele tem batido nessa tecla do câmbio apreciado faz muito tempo. Aliás, nessa questão ele concorda com o PIG, que se já não acreditava em si mesmo no que tange o desastre cambial, agora, com a benção do deus mercado à economia brasileira, terá que se esforçar para afetar um mínimo de convicção. 

Algumas disparidades nas contas externas são perfeitamente compreensíveis num momento de excepcional aumento do consumo interno e, portanto, das importações. Daí a vislumbrar uma crise cambial em cerca de dois anos, vai uma distância enorme. 

Esse alarmismo é antigo e sempre foi entoado pelos exportadores desde que me conheço por gente. Cantam essa modinha quando deixam de contar com o artifício do câmbio e têm que investir em tecnologia e produtividade para compensar a diminuição da remuneração cambial. 

O grau de investimento trará dólares e investimentos estrangeiros em volume, e assim, num primeiro momento, poderá provocar alguma apreciação do real, mas não será o que irá paralisar nossas exportações. Essa cantilena estou ouvindo há anos. Enquanto isso, o Brasil veio acumulando reservas sem parar. 

Essa teoria do caos parte do princípio de que o governo ficará de braços cruzados assistindo o superávit na balança comercial virar déficit. Ignora que fatalmente terá que haver redução dos juros, ainda que num segundo momento. Essa redução, aliada a medidas como exigência de prazo mínimo de permanência para o capital externo, irá conter a apreciação do real, ainda que dólar cadente seja um problema mundial para o qual país nenhum conseguiu solução que não seja interferir na taxa de câmbio. 

Não tenho, obviamente, a qualificação de um Nassif para falar de economia, mas, do meu lado, há um expressivo contingente de economistas e instituições de notório gabarito dizendo que os fundamentos da economia permitirão que administremos o problema cambial. Isso sem falar de quase duas centenas de bilhões de dólares de reservas.

Vivo de fechar contratos de exportação e sei das dificuldades que o dólar barato gera, mas posso garantir que dá para as exportações agüentarem mesmo que chegue a R$ 1,50. E, se isso acontecer, será temporário O próprio dólar tenderá a reagir conforme a economia americana começar a melhorar, talvez lá para meados do ano que vem.

Claro que, para mim, particularmente, seria bom que o real fosse desvalorizado. Contudo, ainda prefiro abrir mão de lucros imediatos em prol de um país melhor para todos. Pena que meus pares prefiram a choradeira a trabalharem com mais afinco. É sempre mais fácil empurrar a conta para o país.”

Nenhum comentário: