quinta-feira, 1 de maio de 2008

Reflexões bíblicas


Por:
Óleo do Diabo


O diabo é um das fontes mais ricas de inspiração para a literatura. Em Grande Sertão Veredas, por exemplo, obra-prima de Guimarães Rosa, a grande dúvida que inquieta o protagonista, Riobaldo, é a existência ou não do diabo. Riobaldo sugere a seu interlocutor invisível que todos os homens sábios do mundo deveriam organizar um congresso para decidir, de uma vez por todas, se o diabo existe ou não. A dúvida perpassa toda a obra. A angústia de Riobaldo deriva-se de sua consciência atormentada por um suposto pacto que ele teria feito com Satanás. Ele não tem certeza. Lembra-se apenas que, numa noite sem lua, no tempo em que era jagunço e vivia momentos difíceis, decidiu ir a uma encruzilhada e chamar o diabo para ajudá-lo a enfrentar seus problemas. Sentiu um vento frio, alguns ruídos, mas nada conclusivo. Voltou ao acampamento. No dia seguinte, porém, Riobaldo acorda sentindo-se diferente. Sente uma força e uma coragem estranhas. Sempre fora uma sujeito calado, taciturno, submisso, lento. Agora, punha-se a falar, a contestar as ordens do chefe, a pensar rápido. Acaba desbancando o chefe antigo e assumindo a liderança do bando, dirigindo a batalha final contra os Hermógenes, os inimigos, e vencendo. O Riobaldo velho, que conta a história, é agora um homem bem sucedido. Antes um homem sem posses, filho bastardo e jagunço anônimo, termina sua vida como próspero fazendeiro e um nome famoso na história das mitológicas guerras sertanejas.

Lendo notícias sobre esse monstro da Áustria, que manteve sua filha presa no porão por 24 anos, não pude deixar de pensar em forças malignas. Principalmente por causa de uma coincidência curiosa. Estou lendo um romance de Norman Mailer, Castelo na Floresta. É o primeiro romance que leio do Mailer, que morreu há poucos meses. É seu último trabalho. Apesar de estar gostando, a leitura estava esfriando um pouco. Este caso do psicopata austríaco fez-me voltar à ele com mais interesse. Trata-se de uma ficção sobre a infância de Hitler e de seu pai. A história gira em torno do incesto. O narrador inicia o livro como funcionário das SS nazista, pesquisando, a pedido de Himmler, chefe da organização, a suposta origem incestuosa de Hitler.

Mais adiante, o narrador revela a sua identidade. É um diabo. Não Lúcifer, mas um de seus vassalos, encarregado a monitorar a família de Hitler desde meados do século XIX, com ênfase crescente a partir do nascimento de Adolph. O pai de Hitler teria sido um incestuoso contumaz, tendo por fim se casado com a própria filha, que geraria o futuro todo-poderoso do III Reich.

O personagem principal até a primeira metade do livro, o pai de Hitler, austríaco também, lembra muito esse monstro atual. O interessante é que o patamar de malignidade da vida real é muito superior à da ficção.

Não sou nenhum obcecado pelo diabo ou simpático a nenhuma seita satânica, que fique bem claro. Ao contrário, depois de ser um anarquista ateu dos mais radicais, me tornei até meio carola. Após os trinta anos, batizei-me (não o era, porque meu pai era ateu), casei-me no religioso e, sempre que visito uma igreja, faço o sinal da cruz ou alguma oração. Sou, no entanto, cada vez mais anti-papal. Acho o Papa um criminoso por proibir o uso do preservativo, mesmo sabendo que a Aids vem devastando países inteiros, como ocorre na África. Também acho que os padres deviam poder se casar, etc. Mas não me perguntem sobre Teoria da Libertação, que não entendo nada disso. Posso afirmar que sou um cristão, um admirador da lenda e das palavras de Jesus, e um leitor atento e apaixonado do Velho e do Novo Testamento, que vejo como obras de grande valor artístico e histórico.

Dito isto, volto ao diabo, com a consciência mais tranquila. Por coincidência, também estou lendo Fausto, a história do cientista que, cansado de sua pobreza material, sua solidão, sua rotina insossa de intelectual, aceita a proposta do diabo, que lhe surge sob o nome de Mefistófeles, de vender sua alma em troca de uma vida de prazeres e amores. Trata-se de outra lenda muito interessante, que novamente nos coloca em face do arquétipo junguiano do diabo como guia para a vida prática. Fausto estava totalmente desgostoso com o resultado obtido após décadas de estudo e pesquisa. Trata-se de um sentimento universal, clássico e contemporâneo. O conhecimento teórico, acadêmico, espiritual, nunca será satisfatório. O homem precisa conhecer a vida, tocar a vida, viver a vida, transar com a vida. Mas a religião tradicional, muitas vezes, surge como um obstáculo a esse desejo. E aí se materializa a figura de Mefistófeles, suprindo essa carência humana. Que homem, por mais santo que seja, não tem o seu demônio interior?

O entendimento mais aguçado dessa questão ajuda a evitar, inclusive, que façamos julgamentos morais precipitados sobre os outros. Aliás, nesses tempos de pré-julgamentos constantes, vale lembrar as palavras de São Paulo, no segundo capítulo de sua carta aos Romanos: "Assim, és inexcusável, ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz. Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles."

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