Ser covarde, é...

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sexta-feira, 27 de março de 2009

Pesos e Medidas

Charge do Bessinha.

Martins Costa: o mensalão da oposição Ainda sobre a Operação Castelo de Areia, vale a pena ler o que disse o jornalista Luciano Martins Costa no programa desta manhã do Observatório da Imprensa. Fonte: Blog Entrelinhas
PESOS & MEDIDAS A imprensa diante dos escândalos Por Luciano Martins Costa, comentário para o programa radiofônico do OI, 26/3/2009 O escândalo provocado pela prisão de executivos da empreiteira Camargo Corrêa, com a revelação de operações financeiras irregulares envolvendo partidos políticos da oposição ao governo federal, é uma excelente oportunidade para testar a idoneidade da imprensa brasileira. Se for verdadeira metade das acusações que foram publicadas, estamos diante de um repeteco do chamado "mensalão", desta vez no lado oposto do espectro político-partidário. Vamos ver como a imprensa se comporta. Como os leitores se recordam, todo o ano de 2005 foi dominado pela agenda do caso que acabou derrubando o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, e outros dirigentes do Partido dos Trabalhadores. O ponto de partida do escândalo chamado de "mensalão" era o uso de caixa 2 – recursos financeiros não contabilizados, no linguajar adotado pela defesa dos acusados. O ponto de partida do caso atual, que a Polícia Federal batizou de Operação "Castelo de Areia", é o mesmo: doações de empresa a partidos políticos, em troca de favorecimentos em futuras obras e contratos públicos, tudo armado em torno de licitações fraudadas. Régua e compasso Por enquanto, a imprensa parece tão perplexa quanto a diretoria da Camargo Corrêa. O material publicado nos jornais de quinta-feira indica que as edições foram atropeladas pelo peso do noticiário, que envolve sete partidos, uma das maiores empreiteiras do país e a Federação das Indústrias no Estado de São Paulo, a Fiesp, além de doleiros e altos funcionários de um banco suíço. Nenhum jornal conseguiu acrescentar dados relevantes ao que foi revelado pela Polícia Federal e pela Procuradoria da República, mesmo porque as diligências policiais se encerraram às 19h45 de quarta-feira (25/3), horário em que a maioria das redações começa o fechamento da edição do dia seguinte. Portanto, os leitores ainda não têm condições de avaliar se a imprensa irá demonstrar, no atual escândalo, o mesmo apetite que revelou na divulgação do caso que manteve o governo federal sitiado durante praticamente o ano inteiro, em 2005. Os próximos dias dirão se a imprensa usa o mesmo peso e a mesma medida para as delinquências da política. Agenda comprometida Na inauguração do novo escândalo, uma tendência fica muito clara: todos os partidos acusados de envolvimento em irregularidades apontadas pela Polícia Federal, envolvendo a Camargo Corrêa e doleiros, tiveram amplo espaço para suas defesas nas páginas dos jornais de quinta-feira (26). O Globo, por exemplo, foi muito cioso em garantir a versão dos acusados, como convém ao bom jornalismo. Mas esse não tem sido o comportamento padrão da nossa imprensa em ocasiões anteriores. O leitor pode fazer por si mesmo as comparações com a cobertura de outros escândalos, como o caso que quase custou o mandato ao senador Renan Calheiros. Naquela ocasião, os jornais praticamente não deixaram espaço para a defesa do acusado. Também é interessante observar como a imprensa vai tratar o juiz Fausto Martin de Sanctis, que acatou o inquérito da Polícia Federal e da Procuradoria da República e expediu dez mandados de prisão e quase vinte mandados de busca no caso atual. Trata-de do mesmo juiz que mandou prender o banqueiro Daniel Dantas na chamada "Operação Satiagraha", e que entrou em confronto com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, que concedeu dois habeas corpus seguidos ao banqueiro. Chuva de lama Lembre-se o leitor que, no caso Satiagraha, a imprensa claramente demonizou o juiz, colocando-o sob a mesma suspeita de abuso que tem sido lançada contra o delegado que presidiu o inquérito, Protógenes Queiroz. Portanto, para fazer um bom juízo, convém ficar de olho na forma como a imprensa irá noticiar o mais novo escândalo nos próximos dias. Uma coisa é certa: o caso promete contaminar tudo que se relacione com política no Brasil. A revelação de que praticamente todos os partidos se valem de financiamentos irregulares, se confirmada, seria uma excelente oportunidade para a imprensa abrir uma campanha pela reforma da legislação eleitoral. Num período em que a abertura dos trabalhos legislativos revela uma sucessão de falcatruas no Congresso Nacional, e quando o lançamento antecipado das candidaturas à Presidência da República ameaça aprisionar o noticiário político numa agenda que caberia melhor no noticiário policial, a previsão do tempo só pode ser uma: muita chuva de lama até o fim de 2010.

sábado, 21 de março de 2009

NEM MAROLINHA NEM TSUNAMI


O Texto a seguir foi retirado do Blog Entrelinhas, que eu repasso para os leitores deste blog.O diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, Jorge Rodini, faz uma análise dos números divulgados pelo Datafolha. Abaixo, palavras de quem entende da matéria:
Esta última pesquisa Datafolha mostra uma queda na popularidade do presidente Lula. Apesar de deter índices vigorosos de aceitação pública, sua avaliação foi impactada pela crise financeira mundial. Lula continua melhor avaliado pelos homens, sendo as mulheres mais desconfiadas e os jovens mais desanimados. Na área social, Lula é reconhecido até pelos eleitores com nível superior. No entanto, há uma piora na expectativa em relação a avaliações futuras em todos os segmentos pesquisados. O principal problema do país hoje é o desemprego, sendo maior este índice entre os mais jovens. Para os mais idosos, Saúde é, de longe, a área em piores condições. Os homens acham que Lula se sai melhor na economia. As mulheres, no entanto, acreditam que ele se sobressai no Social e na Educação, os mais jovens na Educação e os mais idosos no Social. Saúde é a área que Lula pior conduz, seguida de Segurança (uma atribuição dos Estados) e Desemprego. A pior avaliação de Lula é entre os sulistas e a melhor entre os nordestinos. Quase três quartos dos nordestinos acreditam que Lula será avaliado como ótimo e bom nas próximas pesquisas. E 19% dos moradores desta região dizem que a área em que Lula se sai melhor é a Social. A ministra Dilma tem mais votos entre os homens do que entre as mulheres. Somente 52% dos eleitores a conhecem, mesmo que só de ouvir falar, (ela é mais conhecida entre os homens e menos entre os jovens). Serra tem 92% de conhecimento na população, Ciro 86%, Heloísa Helena 72% e Aécio 62%. No Nordeste, Dilma é conhecida por apenas 46% do eleitorado. A ministra é muito pouco conhecida entre os de menor escolaridade e baixa renda. No Nordeste, Serra ganha de Ciro por 34% a 22%, com Dilma tendo intenção de voto de 14% e HH, 13%. O pessimismo em relação as consequências no Brasil da crise financeira mundial é maior entre as mulheres e entre os mais jovens. O que se extrai de toda essa salada numérica é que a crise afetou, de alguma forma, a popularidade presidencial. Lula, é verdade, detém índices quase inimagináveis de aceitação. Sua candidata pré-escolhida patina no lodo financeiro. Seu jeito firme ainda não cativou as mulheres. Serra, apesar da pouca ousadia da oposição, ainda surfa em mares calmos. Lula sentiu de perto a força da marolinha nos seus índices de aprovação. Hoje o presidente tem uma certeza: o que o brasileiro enfrenta não é um tsunami, mas está longe de ser uma marolinha.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Mídia desacreditada não consegue reprovar o Presidente Lula


Datafolha: aprovação a Lula cai de 70% a 65%.

A avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu reflexos da crise econômica e caiu pela primeira vez desde o início do segundo mandato. A aprovação caiu de 70%, em novembro do ano passado, para 65%, segundo pesquisa Datafolha divulgada hoje. O governo terá novo diagnóstico nesta tarde, com a divulgação da pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A pesquisa CNI/Ibope do primeiro trimestre deste ano traz a avaliação do governo, do presidente, e também um capítulo especial sobre os efeitos da crise. Lula tem a maior popularidade entre os presidentes desde a redemocratização, aponta a pesquisa publicada hoje no jornal "Folha de S.Paulo". O então presidente Fernando Henrique Cardoso atingiu no máximo 47% de ótimo/bom em 1996, no auge da popularidade trazida pelo Plano Real. A avaliação pessoal do presidente segue com grande aprovação entre os eleitores que têm a escolaridade fundamental: 68% consideram ótimo/bom. Entre os eleitores com escolaridade superior, a taxa permaneceu em 64%. Entre os brasileiros de menor renda, a avaliação positiva caiu de 71% para 66%. Também houve queda na faixa superior de renda: de 63% para 58%. Em termos regionais, o Nordeste continua sendo a principal área de apoio a Lula, com 77% de aprovação, apesar da queda de quatro pontos em relação ao levantamento anterior. A pesquisa reflete o aprofundamento da crise econômica no Brasil. Desde novembro, o número de brasileiros que tomaram conhecimento da crise aumentou de 72% para 81%, mas apenas 19% se consideram bem informados a respeito. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos, para mais ou para menos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Copom ignora gravidade da economia e faz corte tímido da Selic


A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de cortar a taxa básica de juros (Selic) em 1,5 ponto percentual, para 11,25% ao ano, foi, com razão, mal recebida. O noticiário econômico tenta dourar a pílula, argumentando que esse foi o maior corte desde novembro de 2003, quando a taxa passou de 19% para 17,5%, mas não há como negar que o Brasil perdeu mais uma oportunidade de potencializar a redução da Selic nesse momento em que os efeitos da crise econômica mundial aparecem em toda a sua dimensão no país.
Por Osvaldo Bertolino Meu comentário: O Governo Lula passou 6 anos tomando paulada da oposição que já foi governo, em relação a Taxa Selic, como sendo a maior do mundo. Não que eu esteja dando relevancia a oposição, mas não sou inocente útel, e quando a faca entra, não resta outra coisa a não ser dizer que dói. alem dataxa Selic, existem outros nós que o Governo Lula poderia desatar, como o fator previdenciário (cria de fhc), pagamentos de precatórios dos funcionários públicos (ele assumiu na primeira campanha de pagá-los), e por ai vai. O Governo avançou muito, é o melhor presidente que esse país já teve, mas precisa fazer mais, para além de calar a oposição, contemplar reivindicações dos seus admiradores, por que não?
A queda de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), parece não ter sensibilizado o Copom. ''Avaliando o cenário macroeconômico, o Copom decidiu, neste momento, reduzir a taxa Selic para 11,25% ao ano, sem viés, por unanimidade'', disse o BC em comunicado. ''O comitê acompanhará a evolução da trajetória prospectiva para a inflação até a sua próxima reunião, levando em conta a magnitude e a rapidez do ajuste da taxa básica de juros já implementado e seus efeitos cumulativos, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária'', diz o documento. O problema é que o BC está preso à lógica de usar a taxa de juros somente como instrumento de controle da inflação. É a lógica de que se os juros caem a população tem maior acesso ao crédito e consome mais, com possibilidade de pressionar os preços. Não importa, nem nesse momento de crise aguda, que a outra face da moeda do crescimento do consumo é a revitalização da economia. Com razão os presidentes das centrais sindicais Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Wagner Gomes, Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, e Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, afirmaram, por meio de comunicados, que a decisão do Copom não correspondeu à necessidade da economia. Wagner Gomes, da CTB, disse que “é indispensável enfatizar que o passo dado ainda peca por timidez”. “O corte não foi suficiente para nos retirar da condição de campeões mundiais dos juros altos e tampouco nos deixa muito próximos dos padrões civilizados praticados no chamado Primeiro Mundo, que diante da crise está apelando para taxas de juros negativas, ou seja, inferiores às taxas de inflação”, afirma. Monetarismo exacerbado Para Paulinho, a decisão do Copom ''é nefasta para os trabalhadores''. Ele comenta com precisão que “os insensíveis tecnocratas do BC perderam uma ótima oportunidade de afrouxar um pouco a corda que está estrangulando o setor produtivo, que gera emprego e renda”. “Infelizmente, mais uma vez, o governo se curva diante dos especuladores'', disse Paulinho. Ele lembra que a queda no PIB de 3,6% no último trimestre de 2008 ''é resultado da hesitação dos membros do Copom em baixar os juros de forma mais agressiva''. O presidente nacional da CUT, Artur Henrique, afirmou que a queda da taxa ''era a única decisão aceitável diante da conjuntura'', mas ressaltou que o corte deveria ter sido maior. ''O Brasil ainda tem chances de registrar crescimento em 2009, e devemos ser ousados para não perder a oportunidade. O crescimento depende muito do fortalecimento do mercado interno, e passa necessariamente pela defesa dos empregos e dos salários'', disse. Para o presidente da CUT, o problema é o monetarismo exacerbado dos integrantes do Copom. ''Queremos também que haja controle social sobre o Conselho Monetário Nacional (CMN), com a inclusão de representantes do setor produtivo nos debates e nas decisões. Com isso, passaríamos a estabelecer também metas de crescimento e de geração de empregos, conjugadas com a hoje onipotente meta de inflação'', disse ele. É por aí que a coisa deveria andar. A situação do país exige muito mais atenção ao emprego e à renda da população do que às apertadas metas de inflação que servem exclusivamente aos interesses do mercado financeiro. >Cenário internacional Mesmo os empresários do chamado “setor produtivo” vêem essa lógica com clareza. Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, o Copom agiu com ''acerto'' mas o BC deve apertar o passo. ''Agora, é preciso agilizar a queda com reuniões quinzenais do Copom'', disse. ''Se não bastasse a queda do PIB, de 3,6% no último trimestre de 2008, um dos piores resultados do mundo, manter alta a taxa de juros vai contribuir para que o Brasil tenha crescimento negativo em 2009'', afirmou. A Fiesp alerta que, considerando-se os níveis atuais de inflação, a taxa Selic deveria estar entre 7% e 8% o ano. Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, a decisão do Copom de aumentar ''apenas marginalmente o ritmo de queda dos juros'' frustra “a sociedade, os agentes produtivos e a indústria brasileira''. ''Esse movimento de aceleração no corte dos juros, ainda que na direção correta, não tem a intensidade necessária ao momento'', disse. ''Entendemos que é urgente a adoção de uma postura mais agressiva, com redução de juros compatível com as exigências do momento'', afirmou. ''É necessário trazer a Selic para o nível de um dígito com tempestividade'', completou. Errando na dose O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, também foi incisivo. Para ele, a decisão do Copom foi ''tímida''. ''Os dados relativos ao desempenho da economia indicam a necessidade de medidas mais profundas para evitar que a economia brasileira entre em recessão'', disse. ''Esperávamos que a coragem revelada pelas autoridades monetárias em elevar as taxas de juros quando julgaram necessário, e de mantê-las quando consideraram conveniente, a despeito das pressões de importantes segmentos da sociedade, fosse demonstrada agora com uma redução mais ousada da Selic'', completou. A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) também criticou com dureza e decisão do Copom. ''A redução foi insuficiente. O cenário internacional está pior do que o BC tinha por hipótese meses atrás. Outros bancos centrais já reduziram suas taxas para algo próximo de zero. Nós ainda estamos em dois dígitos'', disse Abram Szajman, presidente da entidade. ''O BC, por meio do Copom, mais uma vez mostrou que está no caminho certo, mas errando na dose'', completou. Segundo ele, o comércio já dá fortes sinais de que precisa de injeções de ânimo. ''Uma redução maior da Selic teria sido o remédio desejado por nós, neste momento'', enfatizou. Importância decisiva Os juros no Brasil estão fora do lugar faz tempo. E precisam baixar rapidamente para ajudar a livrar o país da recessão. Em entrevista à Terra Magazine, o economista Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), disse que o Brasil corre sérios riscos diante da crise econômica mundial. “A idéia de que o Brasil ficaria incólume à crise mundial é absolutamente disparatada”, afirmou. Mas Lessa identifica “instrumentos e potencialidades” para o Brasil se recuperar em condições melhores que outros países. E aponta, como uma dessas pontencialidades, a queda da taxa de juros. Ele explica que o fato de Brasil estar com uma taxa de juros elevadíssima confere vantagens ao país. “O mundo inteiro já baixou. Isso foi a nossa desgraça nesses últimos 20 anos. Mas agora é uma vantagem. Porque talvez o Brasil seja o único país do mundo que, baixando os juros, estimula o crédito. Os outros países não podem mais fazer isso. Nós não estamos no fundo do poço dos instrumentos de crédito, uma coisa que já aconteceu na Europa e nos Estados Unidos”, afirma. A taxa de juros é provavelmente uma das principais razões pelas quais o Brasil não alcança o crescimento sustentado. A oferta de crédito é essencial para o crescimento. Com os sinais de que o Brasil foi atingido de frente pela crise mundial, a redução da taxa de juros passou a adquirir mais relevância. A insistência do BC em seguir operando com juros extremamente elevados também determina um freio nas possibilidades de uma reação à tendência de queda do PIB. Romper essa barreira conservadora é um desafio político que assume importância decisiva nesse grave momento da economia brasileira.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Tomara que não recue

“É uma guerra de resistência; temos que segurar o manche e agüentar"

Excelente matéria da Carta Capital, extraida do Site do meu amigo Rômulo Gondim, que publico agora no meu blog.
Conceição não se mostra otimista em relação ao cenário internacional, mas nos conforta em relação ao Brasil, prova que a politica levada pelo Presidente Lula se mostra eficaz nesse momento.
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"Estamos diante de uma tempestade global. Não é apenas a violência que assusta; é, principalmente, o fato de que a sua origem financeira torna tudo absolutamente opaco no horizonte da economia internacional. Mente quem disser que sabe o que virá e quanto vai durar", diz, em entrevista à Carta Maior, Maria da Conceição Tavares, que falará quinta-feira (5), no seminário promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). "Minha percepção mais clara é de que será uma guerra de resistência; e que o Brasil tem condições de segurar o manche, e agüentar”, assinala.
A professora Maria da Conceição Tavares ainda nem tomou o café da manhã da segunda-feira, 2 de março. Mas já devorou os dados do noticiário sobre a crise e passa rapidamente deles para conversar com Carta Maior sobre os eixos da palestra que fará nesta quinta-feira, dia 5 de março, às 14h30min. Conceição abre nesse dia a primeira mesa de debates do Seminário Internacional sobre o Desenvolvimento que acontece em Brasília. Organizado pelo Conselhão, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, da Secretaria de Assuntos Institucionais do Governo, o seminário tem tudo para ser um importante contraponto de densidade ao enfoque ora alarmista, ora epidérmico que contamina muitas análises da crise mundial e, sobretudo, de seu impacto no Brasil. Inagurado oficialmente pelo Presidente Lula às 9 hs da manhã, o seminário internacional tem a coordenação do ministro José Múcio que convocou duas dezenas de intelectuais, autoridades e lideranças - do Brasil e do exterior - para um balanço daquele que já é reconhecido como o maior colapso da história do capitalismo desde 1929. A TV Carta Maior transmitirá ao vivo os debates, com cobertura completa das mesas programadas para a quinta e sexta-feira. Por ser a reflexão de uma das economistas mais respeitadas do país, a fala da professora Maria da Conceição certamente esticará linhas que vão interligar o conjunto das discussões. Há precedentes que justificam essa expectativa. Veio da “implacável lucidez” da economista, para emprestar o elogio de um de seus muitos admiradores, Carlos Lessa, algumas das reflexões seminais que ajudaram a compreender a evolução da economia brasileira no século XX. Reunidas num livro lançado no início dos anos 70 ("Da substituição de importações ao capitalismo financeiro”) essas intervenções figuram ainda hoje como um ponto de passagem obrigatório para quem pretende entender a dinâmica do desenvolvimento capitalista no país. Pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas. “Veja bem”, diz Conceição quando perguntada sobre qual seria agora o foco principal de sua análise na exposição da quinta-feira, ”estamos diante de uma tempestade global. Não é apenas a violência que assusta; é, principalmente, o fato de que a sua origem financeira torna tudo absolutamente opaco no horizonte da economia internacional. Mente quem disser que sabe o que virá e quanto vai durar. Minha percepção mais clara é de que será uma guerra de resistência; e que o Brasil tem condições de segurar o manche, e agüentar”. Conceição não é propriamente uma poliana acostumada a distribuir cálices de bondades nos salões da política brasileira. Tampouco ganhou o respeito ecumênico que desfruta em círculos intelectuais e acadêmicos por irradiar otimismo panglossiano. A adversária temida e respeitada do conservadorismo nativo na verdade nunca poupou de sua metralhadora crítica nem o governo Lula, sobrertudo no primeiro mandato, quando a macroeconomia adotada pelo ex-ministro Antonio Palocci gozava unanimidade na mídia e no seu braço político-eleitoral, o tucanato. Um de seus ex-alunos diz que a garganta de Henrique Meirelles, o presidente do BC, ainda emite ganidos de dor quando a professora de 74 anos dardeja, sem piedade, a política monetária que dá ao Brasil o campeonato mundial de juro do planeta. “O que estou dizendo não é fruto de otimismo”, pontua essa admiradora confessa de Celso Furtado. “A luta será dura. Mas pela primeira vez na história, o Brasil enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas. Isso é inédito: nesta crise o Estado não está afundado em dívida externa, para não dizer totalmente quebrado, como ocorreu nos anos 90. Significa mais do que não ter um peso morto; significa um Estado em condições de amparar o investimento, o emprego e o capital de giro da economia". A taxa de juro mais alta do mundo finalmente mostra para que serve: serve para ser corrigida agora Conceição brinca enquanto dispara sem dó: “Desta vez, temos ainda uma vantagem paradoxal; e aí devemos reconhecer o serviço prestado pela ortodoxia: há um enorme espaço macroeconômico para "flexibilizar a política monetária", como eles gostam de dizer”, ironiza a professora com um sorriso e aciona de novo o gatilho: “A taxa de juro mais alta do mundo finalmente mostra para que serve: serve para ser corrigida agora na crise. Basta que façam isso e o país já ganhará um substancial reforço na capacidade fiscal para implementar ações anti-cíclicas. Cada ponto a menos na taxa de juro reduz em uma dúzia de bilhões o custo da dívida pública”. A ex-deputada federal pelo PT listará no CDES algumas vantagens que distinguem o Estado brasileiro atual daquele pé-de-chumbo pró-ativo da era FHC, quando, ao contrário de hoje, ajudava a empurrar a economia para o buraco. Hoje, o governo tem fôlego financeiro suficiente para acionar a demanda e o investimento através de uma engrenagem de quatro patas: as políticas sociais; a nova política habitacional – que deve encomendar um milhão de unidades ao setor da construção civil; as obras do PAC – “que alavancam a conjuntura e corrigem as desigualdades da estrutura regional"; e as licitações da Petrobrás –“a Petrobrás, sozinha, meu filho, é uma nação; uma nação que nos dá auto-suficiência em óleo, o que não tínhamos nas outras crises; ao mesmo tempo mantém encomendas que podem sustentar faixas do parque industrial”. Mas, acima de tudo, a professora gosta de salientar uma diferença crucial em relação à carpintaria neoliberal dos anos 90, quando o Brasil bateu três vezes no guichê do FMI: “Hoje temos um tripé de bancos estatais revigorados, que cumprem papel estratégico reconhecido pela política econômica. Com o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal o Brasil pode, de fato, gerar contrapesos à contração do crédito internacional, propiciar capital de giro e investimentos com contrapartida de garantia de emprego. Basta ter determinação política”. Os dois maiores bancos dos EUA agonizam; baixas dessa magnitude não tivemos nem em 1929 Conceição, porém, não minimiza as dificuldades dos dias que virão. “Sem dúvida o colapso financeiro internacional é dramaticamente mais sério que aquele de 29. A crise atual ainda não alcançou a proporção daquela, mas você tem o núcleo financeiro dos EUA carcomido, - veja bem”, pontua a professora didaticamente, “é o núcleo, os grandes bancos, não as franjas. Os maiores deles, o City e o Bank of América, praticamente agonizam. Baixas dessa magnitude não tivemos nem em 1929”, adverte com entonação diferente na voz. Conceição enxerga uma estatização branca em andamento no setor financeiro norte-americano; percepção corroborada pelo noticiário matinal da segunda-feira que informa um novo round na agonia da seguradora AIG. A maior seguradora do mundo ganhou o epíteto agora de maior prejuízo da história do capitalismo americano. Na segunda-feira, receberia nova transfusão de recursos do Tesouro, mais US$ 30 bi sobre anteriores US$ 150 bi que não bastaram para afastá-la da ladeira da liquidação. Conceição não considera que a política de socorro e mitigação pontual adotada por Obama seja suficiente para reverter a espiral que se espalha. “Ajuda pontual não permite ao governo intervir de fato nas instituições; os conselhos e acionistas mantém o comando; não deixam realizar prejuízos; a agonia se arrasta”. A conclusão que extrai dessa convergência entre colapso e hesitação ideológica é que teremos uma crise de longa duração, “uma guerra de resistência”. Conceição reporta ao exemplo japonês para justificar seu ceticismo. “Na crise do Japão, nos anos 90, o setor financeiro foi abalado; nunca se recuperou de fato. O resultado é o que estamos vendo hoje; a economia japonesa desaba porque não tem solidez na perna financeira. Sem essa perna fica muito difícil enxergar a luz no fim do túnel americano. A maior economia do planeta pode patinar por anos a fio”, vaticina. Minha dúvida é se a China, que até agora foi o grande comprador de títulos norte-americanos, continuará a fazê-lo Inúmeras incertezas se acumulam nesse horizonte de longo curso. Mas a principal delas, no entender de Maria da Conceição, argüi a sobrevivência da endogamia sino-americana que sustentou a expansão internacional pré-crise. “Sem crédito o capitalismo não sobrevive”, reitera a professora como que a martelar um avariável que não pode ser esquecida jamais pelos seus ouvintes. “A política norte-americana de socorro e mitigação gera déficits e desequilíbrios crescentes. Os EUA têm um poder quase ilimitado de emitir dívida para se financiar, mas é preciso que o mundo continue disposto a adquiri-la, como tem feito até aqui. Minha dúvida é se a China, que até agora foi o grande comprador de títulos do Tesouro, terá fôlego para sustentar esse papel”. Conceição não acredita que a China possa reciclar facilmente seu dínamo exportador para uma expansão calcada no mercado interno. “Eles já estão fazendo investimentos impressionantes na economia doméstica; não creio que exista espaço para ir além e assim compensar a perda inevitável do lado do comércio exterior. Daí a pergunta para a qual não tenho resposta: até quando terão condições de absorver títulos da dívida dos EUA?” O ativismo keynesiano de Obama ainda não marca a derrota definitiva do neoliberalismo; no Brasil isso será decidido em 2010 A economista encerra com uma advertência política: “Nada do que estamos vendo configura, ainda, a derrota definitiva do neoliberalismo. É um passo. Mas não podemos festejar o defunto sob as ruínas dos mercados financeiros. O que vemos hoje é apenas luta pela sobrevivência; não há lugar para a ideologia na luta desesperada pela sobrevivência. O ativismo keynesiano de Obama, entre outros, é apenas isso, um recurso à mão, nada mais. Provavelmente, essa opacidade ideológica persistirá até 2010. No Brasil, então, será a hora da verdade. Serra se diz um desenvolvimentista - de boca, porque sua aliança preferencial é com os Democratas, cuja agenda dispensa apresentações. A sociedade brasileira terá que escolher o projeto e o arcabouço de valores para conduzir o país na reordenação pós-crise. Tomara que não recue” , conclui a professora Maria da Conceição Tavares.
Fonte: Agência Carta Maior