domingo, 28 de março de 2010

A leitura do Datafolha, pela Folha, e a leitura da Folha

Jurando que não falo mais de pesquisa hoje, acho interessante destacar alguns trechos da análise que a Folha de S. Paulo faz hoje do cruzamento entre a popularidade (recorde) de Lula e as intenções de voto em José Serra e Dilma Roussef, sob o título “Serra e Dilma empatam na base lulista”, que ainda está restrita a assinantes.

Por Brizola Neto
Do Blog Tijolaço.com
A meu ver, a informação mais importante para começar a análise está no último parágrafo:
“Um fato a contribuir para Dilma estar agora estacionada na pesquisa é que só 58% dos eleitores sabem que ela é a candidata de Lula; 5% acham que o atual presidente apoia Serra. Esses percentuais pouco se alteraram de dezembro para cá”.
Como assim, “um fato a contribuir”? Jesus Cristo, será que não enxergam o óbvio, que Dilma é candidata porque é candidata do Lula? Sem nenhum demérito para ela – ao contrário, é um elogio, porque mostra que sua escolha se deu pelo valor pessoal e ideológico, não por razões eleitoralistas – qualquer pessoa sabe que Dilma Roussef, por si só, não seria uma candidata a presidente…
Bom, partido do princípio – que está no final da matéria… – dá para entender os percentuais mencionados no cruzamento entre avaliação do Governo e intenção de voto.
Entre os que aprovam o Governo Lula (76% da população dão-lhe classificação ótimo ou bom), Dilma tem um terço das intenções de voto, um por cento a mais que Serra, que tem 32%. Algém pode achar que isso se sustenta? Algum analista sério acha que – não tendo Dilma uma imensa rejeição pessoal, como o próprio Datafolha registra – pode acreditar que à medida em que a campanha comece e nós não estejamos mais sujeitos a esta coisa ridícula de que o presidente não possa dizer quem é sua candidata em público, os números poderiam permanecer estes?
Claro que, quando falo deste ridículo não estou defendendo o uso da máquina, mas o direito – e até o dever – de o Presidente da República poder expressar suas posições e opções político-eleitorais. Ou alguém acha “democrático” que quase 60% da população não saiba quem é a candidata de Lula? Democracia é isso, manter o povão desinformado até começar o mês e meio do “reino da fantasia” dos programas eleitorais?>br> Desinformação não é exatamente isso, o não-saber?
Desculpem a forma dura de falar, mas as elites sabem bem direitinho quem é quem. Esta “pasteurização” da política, este moralismo troncho de quem sempre usou o poder de Estado, da mídia e do dinheiro para ganhar eleição é coisa da direita. Eles adoram
Eles se apresentam como os “campeões da liberdade de informação”, desde que a informação seja a deles, claro.
E o que diz mais a Folha? Diz que entre os que consideram o governo “regular”, que são 20% da população, e entre os 4% que o acham “ruim ou péssimo”, Serra tem 51 e 48%, reespectivamente.
Portanto, reparem, Serra só tem a metade dos que se sentem oposição a Lula. E não tem desconhecimento de que ele seja de oposição, não, tanto que jogaram o ex-presidente Fernando Henrique para escanteio justamente por essa “inconveniente” mania dele que querer mostrar que é oposição ao atual presidente.
O tucanato tem um jogo claro: manter a população desinformada. Não quer que o povão saiba quem é situação e quem é oposição.
Para a nossa sorte, isto é impossível. O país não é mais um lugar onde só os jornais e a Globo falam e as pesquisas eleitorais são anunciadas quase que como boletins oficiais da Justiça Eleitoral.
Os caciques eleitorais do PT que andam pelos jornais dizendo que este Datafolha “foi bom para acabar com o clima de já ganhou” estão, me perdoem a franqueza, dando uma daqueles jogadores de futebol que ficam dizendo que “o adversário tem uma grande equipe, vamos respeitar o time deles e lutar por um bom resultado”.
Já imaginaram se as torcidas agissem assim?
Para a esquerda meus amigos, eleição se ganha com paixão. A frieza só interessa ao conservadorismo. Ou vocês não repararam como Serra em geral é lacônico, comportado, “certinho”… Mas a vaidade de alguns da esquerda em aparecer como “intelectuais” que analisam friamente e produzem declarações mais frias ainda, os leva a fazer, assim, o jogo da direita.
Duvido que Lula, traquejado como é, entre nesse jogo. Faz meses que eu falei aqui: o “paz e amor já era”. Esta, ainda bem, não vai ser uma eleição de marqueteiros.

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