sábado, 19 de junho de 2010

Deus, um delírio

O livro Deus, um delírio, de Richard Dawkins, é um guia muito bom para aquelas pessoas que estão com suas crenças religiosas na corda-bamba, em dúvida sobre a existência de um deus pessoal. As explicações científicas expostas pelo “Rottweiler de Darwin”, também chamado pelas más línguas de “aiatolá dos ateus”, são a iluminação, no sentido mais iluminista possível, que lhes faltava para que chegassem logo à conclusão de que não faz sentido acreditar em Deus, seja lá por qual nome ele seja chamado.

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Também é um compêndio de motivos que levam os chamados “neoateus” a afirmar que o mundo seria melhor sem religiões – pelo menos sem a tríade abraâmica, composta por cristianismo, islamismo e judaísmo. Muitas das explicações conscientizantes do livro, no entanto, devem ser lidas e analisadas com ponderação, uma vez que nelas podem estar sendo utilizados critérios cientificamente questionáveis para explicar alguns fenômenos relacionados a criações socioculturais, como a própria religião e a moral.
O próprio Dawkins afirma que religiosos convictos ou fanáticos sequer refletirão sobre qualquer ideia trazida por seu livro. Assim sendo, ele deixa claro que seu público-alvo é gente que teve, ao longo de sua vida ou nos últimos tempos, sua fé enfraquecida e fragilizada por desilusões e/ou eventos incitadores da Razão. Ateus convictos que querem fortalecer seus argumentos e adquirir ainda mais certeza de sua descrença, no entanto, também são seus mais potenciais leitores.
Todos estão bem servidos de informações abundantes sobre a debilidade dos argumentos de quem tenta defender filosófica e “cientificamente” a crença num deus. Diversos fatores são desmascarados, no capítulo 2, como as “provas” de Tomás de Aquino, alegações de experiências pessoais e o fato de existirem e terem existido cientistas religiosos.
No capítulo anterior, ele explora dois casos interessantes: o “deus” de Albert Einstein, interpretado como uma espécie de metáfora panteísta, e o caso das charges de Maomé, que efervesceu em 2005 e 2006 na Europa e nos países dominados pelo islamismo.
No capítulo 3, ele exibe diversos argumentos que corroboram como a ciência, pelo menos segundo as conclusões dele, pode tornar improvável a existência de Deus tal como os monoteístas creem. O capítulo em questão é um ataque direto às alegações dos fundamentalistas cristãos que fomentam o ensino do “design inteligente”.
No capítulo 4, em que sugere hipóteses para a origem da religião, Dawkins lança mão de análises naturalistas, tentando estabelecer uma origem biológica para crenças sobrenaturais, o que deve ter deixado antropólogos fulos da vida. De fato, quem leu pelo menos a introdução do livro de Émile Durkheim As formas elementares da vida religiosa já passa a ver a explicação de Dawkins com um pé atrás, até porque este deixa de comentar, não lhe fazendo qualquer alusão, o ensinamento do sociólogo francês de que a religião, mesmo em sua gênese, é um fenômeno que, condensando aspectos como sentimentos coletivos e valores socioculturais, deve ser explicado pelas ciências sociais, não pelas naturais.
Os dois capítulos seguintes são dedicados a refutar outro pilar da argumentação dos defensores da religião como algo fundamental: a moral. Neles Dawkins escancara dois pontos maiores: como a Bíblia, em vez de ser um arauto da moralidade e uma inspiração divina ao bom comportamento, é na verdade um livro repleto de sangue e comportamentos violentos que a ética de hoje repudia completamente; e como a religião nada tem a ver com o progresso do zeitgeist moral ocidental, banindo dentre os valores aceitáveis a escravidão, o racismo e outras injustiças – religiões fundamentalistas, pelo contrário, mostram-se como tentativas de justamente causar retrocessos nessa evolução ética.
Dentre esses dois capítulos, o 6 também utiliza uma metodologia biológica darwinista para explicar o fenômeno humano da moral. E, assim como o capítulo 4, também é de deixar antropólogos e sociólogos enfezados. Uma professora de sociologia da UFPE comentou que a posição naturalista de Dawkins para explicar fenômenos humanos é “uma ignorância filosófica/antropológica/sociológica digna de pena”. E todos aqueles entendedores de ciências sociais infelizmente tenderão a concordar com ela, com razão.
No final do capítulo 7, os leitores são mergulhados num poço de tenebroso mal-estar ao entrar em contato com uma explicação sobre o suposto ateísmo de Hitler e o comportamento imoral do convictamente ateu Stalin. Esse mal-estar, deixe-se claro, deve-se ao contato com as trevas da história de homens terrivelmente cruéis e assassinos, cuja existência foi algo que a humanidade desejaria que jamais tivesse acontecido.
Dawkins tenta deixar dúvidas sobre se Hitler realmente acreditava no deus cristão, ao contrário dos tantos autores seculares que afirmam com força que o nazista era cristão dos mais fervorosos dadas as tantas evidências historiográficas escritas e fotográficas da religiosidade cristã do führer e da forte aliança dele com o cristianismo alemão. Já Stalin é uma ilustração de como o ateísmo não leva sozinho uma pessoa a ser ética, embora também não faça o contrário.
Nos capítulos 8 e 9, os abusos das religiões monoteístas são escancarados, com fortíssimo destaque ao fundamentalismo cristão estadunidense – aquela parcela de religiosos que dá mais motivos “por que ser tão hostil” com a religião. Destacam-se no 8 a questão da homofobia religiosa, a incoerência e contradição da “defesa” cristã da vida (no caso a vida humana embrionária) e a medula espinhal da antirreligiosidade “neoateísta” – como a “moderação” na fé alimenta o fanatismo religioso. Já no 9, as crianças são defendidas dos abusos físicos e psicológicos causados pelas religiões e da “deseducação” provida por certas escolas religiosas inglesas e estadunidenses.
No capítulo 10, encerrando o livro, Dawkins ora mostra como Deus atua exatamente como um amiguinho imaginário infantil, ora dá uma de Carl Sagan, introduzindo o leitor a uma viagem ao inacreditavelmente fascinante mundo da ciência. Uma de suas explicações sobre a física quântica mostra como tudo o que existe em nosso corpo e ao nosso redor é composto por 99,999...% de espaço vazio – a impressão de solidez e tenacidade da matéria é causada, segundo ele mostra, por campos de força subatômicos. A ciência é revelada como o bem libertário que rasga a burca que representa a nossa limitação sensorial de enxergar o que é realmente tudo ao nosso redor e no universo.
À parte o muito criticado defeito de dar um tom biológico-naturalista à gênese dos fenômenos sociais da religião e da moral, Deus, um delírio é um bom livro de introdução ao ateísmo, com o qual pessoas de fé menos convicta podem se libertar das correntes com que a religião prendia sua capacidade de pensar livremente.

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