sábado, 14 de maio de 2011

Dos laços de desejo







Como fugir da tentação inesperada? O sexo é um prólogo do amor incondicional?


Do Blog Apimentário






Há filmes que colocam discussões bastante envolventes sobre os dilemas da sexualidade — ainda mais quando são questionamentos reflexivos quanto à relação psicológica da idade, vida e da pertinência da importância do senso do sentimento humano. Em Fatal, filme dirigido por Isabel Coixet, baseado no livro de Philip Roth, a relação do sexo é um forte condicionamento do princípio argumentativo — mas, a trama conserva maiores elementos discursivos que não se mantém apenas na esfera do teor libidinoso. David Kepesh (Ben Kingsley) é um renomado professor literário e crítico cultural — é através desse personagem que todo o filme é desenvolvido, em sua percepção, numa narrativa que sempre usa do artifício da negação. Ele nos conta, numa espécie de reminiscência, sua vida repleta de vícios e promiscuidade. David atinge seus 70 anos de idade, sem jamais conseguir criar um vínculo sentimental, nem mesmo fiel, com alguma mulher. Fascina-se nos jogos de conquistas sexuais, no seu poder de flertar com suas alunas. Um típico homem libertino que objetiva transar com o maior número de mulheres. É pai de um problemático filho Kenneth (Peter Sarsgaard), fruto do primeiro relacionamento antigo que não conseguiu nutrir; e mantém um caso superficial, ainda que duradouro, com uma sucedida mulher, Carolyn (Patricia Clarkson). É quando conhece Consuela Castillo (Penlélope Cruz), sua aluna, de beleza estonteante e hipnótica que se torna seu novo objeto de desejo. Seria ela mais uma conquista sexual? A beleza da jovem, a inteligência sensível e a elegância são requisitos que atraem David. O tórrido caso inicial torna-se um gradual ciúme doentio quando eles passam a vivenciar uma relação que tende ao perigoso.

É possível obter um orgasmo antes mesmo de transar com a pessoa? A overdose de desejo, delírio sexual e tesão são sentidos evidentes no roteiro. David torna-se viciado em Consuela, ainda que tema que o relacionamento seja inviável, devido à diferença exorbitante de idade. O sexo define inicialmente a relação que se sustenta no vício do corpo, no compartilhamento de transas furtivas sem a conotação sentimental. David vê o casamento como um martírio, uma detenção que jamais pode se permitir. É a representação do crítico masculino contra a monogamia, alguém que foge do conservadorismo estabelecido pela sociedade que acredita no casamento. É um homem que prefere manter relacionamentos sexuais sem o aprofundamento do sentimento. É possível viver apenas de sexo sem afetividade? Mas, aos poucos, Consuelo mexe com toda sua vida — o professor desespera-se ao sentir ciúme, a insegurança crescente e indisposição de ser possivelmente descartado pela moça. Dos encontros orgásticos de tanto sexo, ambos passam a conviver harmonicamente: eis a felicidade sexual ou o surgimento de uma paixão inebriante? O desejo sempre surge antes do sentimento? Como se manter longe do objeto de desejo? David se sente, cada vez mais, entregue à inabalável sentimentalidade mesclada ao sexo diário. A problemática surge quando o ciúme torna a rotina no mais absoluto descontrole; a desconfiança passa a ser vivenciada. Será que Consuelo realmente seria fiel a ele? Como superar a diferença de 30 anos de idade entre ambos? A preocupação com o corpo perfeito, com o sentido de que só a beleza física seja sinônimo de satisfação, também são sentidos abordados no decorrer do filme.

E não só o condicionamento sexual é pautado no filme. O enfoque reflexivo sobre a sedução, o papel do homem contemporâneo libertino e o poder de submissão ao sexo são aliados ao maior argumento: o envelhecimento. É esse sentido que dita todas as regras questionadoras do roteiro. David é inseguro quanto a sua idade perto de Consuelo — troca confidências com seu amigo George (Dennis Hopper) que, assim como ele, é outro homem que não lida tão bem com seu envelhecimento. George trai a mulher para se auto-afirmar, procura jovens adolescentes para sexo casual. A temporalidade não deveria acompanhar a maturidade? É inegável como o ser humano não se aceita velho, preocupa-se com o corpo enrugado e procura o sexo como forma de escapismo. David exerce seu distanciamento quanto à sentimentalidade por crer na ilusão amorosa. É o homem embrutecido pelo tempo que tem medo da morte, no fundo alguém que teme a própria solidão. Apesar de toda sua sapiência e intelectualismo, sente-se inseguro pela jovem sagaz que o desconcerta, por ser cheia de vivacidade. Somente Consuelo poderia modificá-lo intimamente? A beleza, o comportamento e passionalidade feminina da moça exercem um poder de transformação na vida dele. Eis que a beleza pode não só cegar, mas transformar e revelar as pessoas.

O filme mostra essa relação do tempo, de como a vida pode ser puramente efêmera. O importante é experimentar o prazer com o alicerce da sentimentalidade. O que importa para o tempo quando se ama alguém? É no segundo ato do filme que as reflexões se tornam frequentes, contundentes. É irônico observar um homem na meia-idade que aprende o poder do sentimento, da auto-confiança e da necessidade de intensidade emocional com uma jovem. A correta direção de Isabel Coixet pressiona nos jogos de diálogos, olhares e pensamentos expostos de um entrosamento eficiente de Ben Kingsley com Penélope Cruz — o tom inicial de erotismo sexual transforma-se num drama muito mais sentimental, é quando seus personagens entendem o aprofundamento da relação. O ser humano teme se decepcionar a ponto de se fechar, tranca-se com medo do sofrimento, daí não se entrega. A sensualidade em certas cenas são favorecidas pela hipnótica presença de Cruz que aparece semi-nua, delicada, numa representação que valida o seu personagem como foco de desejo. Por mais que uma relação seja mais bem viabilizada pelo vício carnal, jamais se sustenta com a ausência de afetividade. A película deliciosamente explora o poder que o amor pode proporcionar a um ser humano, junto com a descoberta do sexo ardente. "Pode achar alguém tão encantador, sem ter sexo?" - pensa David, em certo momento do filme. Puramente belo, contido e plenamente realista.


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