segunda-feira, 7 de julho de 2014

A ética do guerreiro e do cortesão, no episódio Dirceu

A ética do guerreiro e do cortesão, no episódio Dirceu

Por Luis Nassif.
Desde o teatro grego, dois personagens opostos foram consagrados: o guerreiro e o cortesão. Para cada qual, a dramaturgia criou uma ética própria.
Para os guerreiros, os combates a peito aberto, a luta limpa, o respeito pelo adversário, especialmente pelo adversário caído, a intolerância às manobras de bastidores. Para os cortesãos, as jogadas oportunistas, os métodos sibilinos, sorrateiros, as jogadas calculadas e interesseiras.
Foi assim com César e os senadores romanos, com a saga de D’Artagnan e os Três Mosqueteiros, com a dicotomia entre Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra.
Na maioria das vezes, o perfil cortesão era assumido por intelectuais da corte ou políticos, ambos se igualando nas manobras de bastidores; o perfil guerreiro, pelos comandantes.
Nesse início de eleições, há uma peça de teatro grego no ar, a prisão e o desterro político de José Dirceu, o maior dos generais do PT, e a luta penosa para livrá-lo de um juiz carrasco. Finalmente, sua saída da prisão, abatido, envelhecido mas mantendo o porte ereto.
Duas manifestações de adversários me chamaram a atenção
Bolívar Lamounier é um cientista político que experimentou o auge em fins dos anos 80, quando foi dos primeiros a se dar conta de um novo personagem que surgia no horizonte político: a opinião pública midiática.
Depois disso, logo tornou-se um intelectual orgânico firmemente ligado ao PSDB, como tantos outros intelectuais de peso, como Boris Fausto. Com uma diferença. Boris jamais abriu mão do rigor acadêmico, jamais fez concessões à selvageria exigida pelos grupos de mídia para ganhar visibilidade. Bolívar seguiu caminho inverso, dos intelectuais que abrem maos de teses iluministas para atender ao clamor da turba.
É dele as seguintes declarações referindo-se à saída de Dirceu da Papuda para exercer o direito assegurado por lei de trabalhar fora:
“Nem nos tempos das prisões políticas, os presos tiveram regalias como as que estão tendo José Dirceu”.
Não se sabe bem o que ele fazia nos tempos da ditadura. Naqueles tempos os presos saíam mortos. Talvez fosse essa a isonomia pregada pelo nosso intelectual iluminista.
“— É um deboche claro. A maioria dos presos brasileiros vive em condições sub-humanas. O próprio ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que as prisões brasileiras mais parecem masmorras medievais, muito longe da situação vivida por Dirceu. Não podemos esquecer que o ex-ministro foi condenado por corrupção, o que é um crime grave e teria que estar recebendo a punição de forma exemplar, sem privilégios”.
Bolívar ignorou toda a teoria iluminista, os avanços civilizatórios consagrados desde a revolução americana e considerou privilégio o réu ter direitos. Para a turba, isonomia consiste em tratar todos sem direito algum.
Até hoje, não vi nenhum intelectual sério, que se dá o devido respeito, endossando selvagerias dessa ordem.
Aloyzio Nunes é o político guerreiro. É o principal senador da oposição, sem gastar saliva em bobagens como Álvaro Dias, sem fazer uma representação por hora, como Carlos Sampaio, sem ficar na nota só das agressões, como Roberto Freire.
Ele fala de Dirceu e faz oposição ao mesmo tempo.
Não renega seu passado de guerrilheiro nem a amizade com Dirceu:
“Somos amigos desde os tempos da faculdade. Eu não renego um amigo. Sou amigo até hoje do Dirceu”, disse o tucano, para quem “divergência política é uma coisa” e amizade, outra.
Tem a devida solidariedade de guerreiro em relação ao adversário caído:
A imagem do amigo envelhecido e abatido em seu primeiro dia de trabalho fora da Papuda o impressionou. “Cadeia é uma merda, é um horror, aquele cheiro de creolina”, observou.
Mas não abre mão do discurso político:
Aloysio não acredita que tenha havido abuso no julgamento do Supremo Tribunal Federal. “O Zé é um cara disciplinado, inteligente, uma pessoa calorosa. Lamento muito sua situação. A prisão é sofrida. À maneira dele está fazendo o que acha que é certo para o Brasil. Eu discordo. Ele teve toda oportunidade de se defender.”
E dá a fórmula civilizada (e eficaz) para a oposição política:
“O ataque é contraproducente, acaba ricocheteando. Não precisa atacar o governo do PT. Os pontos frágeis do governo Dilma são muito visíveis, muito sentidos pela população, os preços, o endividamento das famílias, a baixa qualidade de emprego, a diminuição do ritmo de criação de empregos, o mau serviço público, a incerteza do amanhã.” Para Aloysio, não há mais grandes embates ideológicos. “O que existe são propostas para melhorar o Brasil. O Aécio tem credibilidade de sobra para propor isso.”
Aí me lembrei, logo após a vitória de Dilma, em 2010, José Dirceu comentando a reação de seu adversário José Serra – em vez de um discurso de aceitação da derrota, uma conclamação à luta. Em vez de condenar o adversário, Dirceu manifestou admiração pelo seu espírito de luta.
Os guerreiros sabem se respeitar.

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