quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Muro da Vergonha brasileiro

O Muro da Vergonha brasileiro

Por Renato Motta.

Um muro está sendo erguido diante do Congresso Nacional. Debaixo da proclamada necessidade de proteger a integridade física dos manifestantes contra e a favor do Impeachment, o que surge é a dolorosa e física constatação de que o Brasil rachou ao meio.

Como aconteceu no muro de Berlim, ficou provado que só existe uma verdade e um caminho: os de quem está do nosso lado do muro. E foram para o espaço cinco séculos de miscigenação, a aceitação mútua, a pluralidade de credos, a convivência pacífica de diferentes culturas, a festejada alegria do povo, a arte variada e a rica gastronomia regional. Ficamos sob uma dicotomia engessada e patética: Nós contra Eles.
E o muro no meio.

Curiosamente, dentro do Congresso a união e a fraternidade se mantêm entre os políticos de variados matizes. Todos ali dentro querem o mesmo: defender os próprios interesses; cuidar de encher os bolsos; conseguir vantagens, benefícios, promessas e cargos. Enquanto o povo estiver lá fora, cortado ao meio pelo muro da vergonha, os deputados oponentes estarão no centro desse estranho circo onde os palhaços ficam na plateia. Suas Excelências continuarão tomando cafezinhos em meio aos trabalhos, trocando tapinhas nas costas e tentando organizar o próximo show pirotécnico no picadeiro dos amorais.

A culpa dessa aberração não é de Dilma, nem de Temer, nem de Lula, nem de Cunha, nem de Renan, nem de Aécio, nem de Marina. Eles não são demônios, nem santos, nem anjos, nem deuses... são humanos. A culpa também não é minha nem sua, porque nós votamos em quem confiamos, embora os eleitos tenham o bizarro hábito de sequestrar repetidamente a nossa esperança em um país melhor.

E de quem é a culpa, então? A culpa é de uma estrutura política arcaica e apodrecida, baseada em trocas de favores, no “toma lá, dá cá”, na falta de compromisso com o futuro do país e com o amanhã de filhos e netos da nação, que se acotovelam e são esmagados no muro da vergonha brasileiro. Eles já não choram de dor nem de fome; choram de ódio e decepção; de desespero e perplexidade. Enquanto lá dentro, nessa ilha que se chama Brasília... nessa Bastilha que se chama Bras-ilha o cafezinho corre solto e os tapinhas, abraços, beijos e promessas se perpetuam.

Triste país o que passa por tanto sofrimento e ainda é obrigado a enfrentar muros que escondem o futuro. Enquanto o resto do mundo assiste, atônito, ao desmoronar do nosso castelo de sonhos, uma coisa fica clara: vença quem vencer, uma derrota já está garantida: a derrota de cada brasileiro.

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